
A trajetória de um músico quase nunca começa no palco. Antes dos amplificadores, dos pedais e das guitarras, existe um território formativo feito de curiosidade, convivência e escuta atenta. No caso de Murillo Xavier, esse território foi a igreja. Um espaço onde o contato precoce com instrumentos, som e organização musical plantou as primeiras sementes de uma relação profunda com a guitarra e, principalmente, com a composição.
Ao longo desta entrevista, Murillo revisita esse início, passa pelas influências que moldaram sua linguagem e aprofunda sua relação com guitarras de alcance estendido, sempre a partir de uma perspectiva autoral. Longe de tratar o instrumento como ferramenta de peso puro, ele constrói uma abordagem harmônica marcada por cores, tensões e camadas, onde fusion, jazz e metal coexistem de forma orgânica.
Entre referências como Steve Vai, John Petrucci e Stevie Ray Vaughan, parcerias fundamentais como a de Michel Oliveira e a busca constante por identidade sonora, Murillo revela um pensamento musical que vai além da técnica. No fim das contas, esta é uma conversa sobre escolhas, maturidade artística e o prazer quase obsessivo de criar universos sonoros completos, nota por nota.
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Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Murillo Xavier.
Para começar, que tal nos contar sobre como foi seu começo no universo da guitarra?
Tenho muito orgulho de ter começado na igreja. A igreja foi um lugar extremamente importante na minha vida, inclusive na minha formação musical. E, sendo bem direto, tudo começou de um jeito muito simples. Eu sou sobrinho de pastor e, por isso, eu e meu primo convivíamos muito naquele ambiente.
A gente costumava chegar mais cedo aos cultos. Então ficávamos ali, antes de tudo começar, brincando na nave da igreja, arrumando cadeiras, limpando, organizando os instrumentos, ligando e desligando a mesa de som. Tínhamos uma liberdade enorme para mexer em tudo, para fuçar mesmo nos instrumentos.
E qual seria seu top 3 de influências?
Então, tem o Steve Vai, que foi o cara que literalmente me converteu à guitarra. Depois vem o Vaughan, que foi a primeira vez que eu ouvi um timbre realmente diferente de tudo aquilo que eu tinha crescido escutando até então. Aquilo abriu uma porta nova pra mim.
E aí entra o John Petrucci. Eu quase digo que ele não é mais importante do que o Steve Vai na minha vida só porque não apareceu na minha infância… mas isso nem é verdade. Ele apareceu, sim. Na mesma época em que eu assisti ao DVD do G3, esse mesmo primo me apresentou também o Scenes From New York, o registro ao vivo do Scenes From a Memory.
A partir dali, o Petrucci passou a ocupar um lugar muito específico na minha formação, não só como guitarrista, mas como referência de timbre, composição e linguagem.
Como a guitarra de alcance estendido aparece na sua jornada?
Na época de uma das minhas primeiras bandas mais “sérias”, conheci um dos guitarristas mais importantes da minha vida e da minha carreira: o queridíssimo Michel Oliveira, que é praticamente um irmão para mim.
Foi ele quem me apresentou de vez ao universo das guitarras de 7 e 8 cordas. Lembro até hoje quando ele virou pra mim e falou algo do tipo: “Cara, você tá tocando em dó? Meio tom abaixo? Então não tem jeito, você precisa de uma 7 cordas”. E insistiu: “Você tem que tocar com 7 cordas”.
E as guitarras de 8 cordas?
No momento, eu não tenho nenhuma guitarra de 8 cordas minha. Mas usei bastante uma 8 cordas emprestada do Michel. Era uma Stratocaster de corpo grande, uma Strato mesmo, só que com 8 cordas e escala de 29. Um braço enorme. E a experiência com a guitarra de 8 cordas foi muito interessante, até porque ela também veio por influência direta do Michel, que é, sem exagero, um dos principais pioneiros das 8 cordas aqui no Brasil. Foi um dos primeiros caras a tocar com isso por aqui e quem realmente ajudou a popularizar a ideia.
Fale um pouco sobre sua relação com o Michel!
O curioso é que eu e o Michel andamos muito juntos e tocamos muito juntos. Mas, apesar dessa proximidade, nossos estilos são bem diferentes. O Michel tem uma abordagem mais pesada. Ele é um cara de groove, mas vem muito do metal, do metal extremo. Tem forte influência de metal industrial, djent, death metal, deathcore. É aquele lance do riff pesado, extremo, denso. E eu nunca me enxerguei como compositor fazendo exatamente esse tipo de coisa.
E qual a sua concepção sobre o uso da guitarra de 8 cordas?
Quando fui para as 8 cordas, a primeira coisa que fiz foi não me comparar ao Michel, mesmo ele sendo a grande influência para eu usar esse instrumento. Enquanto ele costuma baixar muito a afinação, usando drop E, às vezes drop D, quase todas as minhas composições com 8 cordas eu mantive em afinação padrão. Pra mim, a minha linguagem funciona melhor fora de drop. A afinação padrão já era suficiente para fazer tudo o que eu queria.
A ideia era usar a oitava corda como uma extensão do instrumento como um todo. Em alguns momentos soando pesado, claro, mas também soando mais virtuoso. Eu sempre penso minha música como uma paleta extremamente colorida, cheia de tensões diferentes, caminhos diferentes, fraseados diferentes, acordes diferentes. Então, quando fui para a 8 cordas, segui uma abordagem mais espalhada, mais colorida, mais cheia de nuances.
Mas você planeja colocar guitarras de 8 cordas no seu arsenal de forma mais incisiva?
A guitarra de 8 cordas não é o meu instrumento principal. A 7 cordas ainda é o meu território natural. Mas a oitava corda tem ganhado cada vez mais espaço nas minhas músicas e também na minha vontade de compor.
No começo, eu tive uma Ibanez S, uma S8QM. Uma guitarra linda, com tampo de maple quilted, toda vermelha, parecia uma maçã do amor. Coisa mais linda mesmo. Eu cheguei a compor algumas coisas com ela, mas era um instrumento que não me inspirava tanto. Às vezes eu ouvia mentalmente o que queria compor, mas o resultado soava pesado demais, e eu não queria soar daquela forma naquele momento.
Atualmente, eu sinto necessidade de ter uma guitarra de 8 cordas. Tem ideias que surgem e eu penso que teriam outra dimensão numa 8 cordas.Creio que hoje eu estou mais maduro para pegar uma 8 cordas e soar mais fiel a quem eu sou musicalmente.
Quando você escuta “o som do Murillo”, sem recorrer conscientemente às referências externas, o que define esse som como algo que te representa como músico?
Pensando tecnicamente, a guitarra de 7 cordas é o meu padrão. A de 6 e a de 8 cordas são instrumentos diferentes para mim, mas a de 7 cordas é onde tudo acontece. Cerca de 99% das minhas músicas são compostas com ela.
Harmonicamente, trabalho muito com tétrades, influência direta do fusion e do jazz. Meus arpejos quase sempre têm sétima, com adições de nona e décima primeira. Tríades são raras. Na mão direita, uso palhetada híbrida, mas não no sentido clássico do country. Ela funciona mais como uma extensão da palhetada alternada, integrada à minha linguagem técnica.
E para finalizar, você se vê mais como guitarrista ou se vê mais como compositor?
Como compositor, sem dúvidas. Compor é a coisa que eu mais gosto na vida. Eu amo tocar guitarra e amo subir no palco, mas compor me dá um prazer gigantesco. Juntar os elementos, dar o play depois que tudo está pronto e ver aquele universo acontecendo é, pra mim, a melhor coisa que existe.
Por isso, nos meus projetos, principalmente no Sound Seasons, eu faço questão de cuidar de tudo. Todas as linhas, da linha de contrabaixo à linha de bateria, as guitarras base, as guitarras solo, todas as milhões de camadas que existem na minha música. Eu sou esse tipo de cara que gosta de ter muitos elementos acontecendo por trás, tudo pensado e construído na composição.