Edição nº 147
Edição nº 147

Cacá Barros

Concursos, disciplina e criação de identidade

Por: Guilherme Montanari

Desde os primeiros acordes no violão aos oito anos, Cacá Barros construiu uma trajetória marcada por disciplina, curiosidade e dedicação intensa à guitarra. Tocando ainda jovem na igreja, aprendeu não só técnica, mas também a importância de se conectar com o público, respeitar o contexto musical e buscar excelência em cada execução.

Influenciado por grandes nomes nacionais e internacionais, ele mergulhou no universo dos guitar heroes, absorvendo referências de músicos como Juninho Afram e Joe Satriani, desenvolvendo seu próprio estilo técnico e melódico. Vencedor de concursos online e pioneiro na construção de uma carreira digital, ele descobriu cedo que a música instrumental pode equilibrar virtuosismo, emoção e narrativa, sem cair na repetição ou no exibicionismo.

Nesta entrevista, ele compartilha seu percurso, as referências que moldaram seu som, a evolução técnica ao longo dos anos e dicas para quem busca crescer na guitarra de forma consciente e criativa.


Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no, no Spotify ou no YouTube.

Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Murillo Xavier.


Como foi seu começo na música?

Comecei no violão, eu tinha ali de 8 para 9 anos, comecei com meu pai e aí fui pegando gosto, pegando gosto e com os 12 eu fui para guitarra e aí não parei mais. Eu ficava horas e horas tocando e comecei tocando na igreja, até hoje eu toco na igreja e foi isso cara, fui pegando gosto assim e o negócio desenrolou. 

E o que o play na igreja te ensinou musicalmente? 

Vamos trazer o negócio para o lado filosófico. A gente que toca na igreja, tem a premissa de querer fazer o melhor para Deus. Então eu tinha muito isso comigo e foi algo que acabou impactando diretamente na minha carreira. Porque eu sempre quis me aprimorar, primeiramente para tocar na igreja e depois acabei levando isso para o profissional também.

E aí os outros aspectos, você se acostumar a tocar público, então você já tem muito cedo aquele contato com o friozinho na barriga de se apresentar para uma galera, tem o lance de você aprender o respeito musical, de se encaixar dentro dos contextos, então tudo isso aí.

Nesse começo, quais foram os seus primeiros heróis da guitarra?

Vou citar três que foram muito, muito fortes no meu começo, que são os dois guitarristas da banda Resgate, o Zé Bruno e o Hamilton, que foram os caras que despertaram minha paixão por tocar guitarra.E também o Juninho Afram, que aí foi o cara que me incentivou a ficar horas e horas estudando para tocar igual a ele. 

Na sequência, meu primeiro professor de guitarra me mostrou os guitar heroes, tipo Satriani, Paul Gilbert, Petrucci, Steve Vai, todos esses. Também tive muito contato com o material também do Edu Ardanuy e do Kiko Loureiro, que tinham já videoaulas disponíveis na época, e fui procurar as bandas, fui conhecer o Angra, Dr. Sin. E aí o negócio deslanchou.

Essa cultura do guitar hero influenciou muitas gerações. 

Sim, com certeza. E aí, assim, é meio que efeito cascata, porque esses caras foram referência para as gerações que vieram depois, e aí esses caras da geração da próxima já foram referência para outra e assim vai.

E como foi o seu desenvolvimento técnico para alcançar esse ápice da técnica na guitarra? 

Sempre me considerei um cara muito lento no aprendizado, porque eu demorava muito para conseguir tocar qualquer coisa. Hoje eu vejo meu filho tocando, ou vários alunos que já passaram por mim, e a galera se desenvolve muito rápido, que em questão de semanas, de meses, já tá tocando assim coisa bem rápida e fazendo, e comigo foi muito diferente.

Demorei bastante. Eu não tinha uma postura técnica adequada, mas o que eu fiz foi vencer pelo cansaço. Ficava treinando horas e horas a fio ali, e muitas das vezes estudando errado. 

De uns 10 anos pra cá, tenho essa consciência do estudo técnico mais formada. E até chegar ao ponto que o negócio começou a desenrolar, mesmo que entre aspas de maneira errada, mas comecei a ver resultados. E aí eu cheguei depois a outro ponto do meu play, e percebi que se eu não parasse para lapidar os detalhes, com relação à postura de palhetada, de esforço, de parte física e tudo mais, eu sabia que se eu não mudasse aquilo eu não ia conseguir ir muito pra frente de onde eu estava.

E quando você descobriu que precisava ter esse refinamento técnico?

Penso que se resume muito a você prestar atenção nos detalhes. Desde colocar no metrônomo e você prestar atenção em todos os movimentos até você cravar. Então, uma coisa que acontecia muito comigo era, eu percebia que alguns determinados movimentos engasgavam mais do que outros, tipo, padrão de três notas por corda onde eu começava palhetando para baixo uma corda e para cima na outra. Aí eu via que na mudança de uma corda para outra, dava uma engasgada que quando eu estava numa corda só não dava.

Então eu comecei a perceber esses pequenos pontos e claro, também vendo muito conteúdo dos guitarristas que eu acompanho, incluindo Kiko Loureiro e Roger Franco. 

E como foi a história do concurso envolvendo o seu começo de guitarra?

Sim, eu me criei na internet em concursos. O primeiro concurso que eu ganhei foi em 2010, na época promovido pela Condor, e era para fazer uma versão do Hino Nacional. E aí eu criei a minha versão do Hino Nacional, mandei, foi tudo online, e acabei saindo como vencedor. E aí eu ganhei uma guitarra com a bandeira do Brasil pintada, personalizada, vários brindes e um monte de coisa.

E foi ali a primeira vez que eu tive esse contato. Primeiro com o contato direto com guitarristas famosos. Na época, me lembro que os jurados eram Andreas Kisser, Ozielzinho e tinha mais alguém da Condor. Então eu troquei alguns e-mails com eles e foi bem bacana. 

E o que isso muda na trajetória de alguém assim, no começo? 

É legal por vários fatores. Primeiro, te dá um gás enorme. Você fica naquela: uma gravação, uma versão que eu fiz, ganhou uma premiação. Foi escolhido entre tantas pessoas e aí você tem essa validação. E aí surgem mais contatos, tanto de pessoas do meio quanto de público, porque acaba gerando uma divulgação espontânea para isso. Lembro que na época foi postado no site e as redes sociais não tinham a mesma força que têm hoje. Mas assim, já serviu para fazer barulho, principalmente no YouTube, que foi onde aconteceu tudo. E aí eu já comecei a ter inscritos no canal. Foi um processo de validação bem bacana da minha própria carreira.

E como é que você desenvolveu seu estilo a partir daí? 

A partir dali, comecei a entender melhor o que as redes sociais poderiam me proporcionar. Que era justamente esse lance de criar uma vitrine através de uma exposição, tipo no caso o meu canal no YouTube na época. E aí eu tinha Orkut, tinha MSN e o Facebook veio pouco tempo depois. E eu comecei a me projetar em cima disso. 

Além do mais, sempre quis tocar as próprias músicas. Compus minha primeira música  instrumental quando eu tinha 15 anos. E essa música está no meu primeiro disco, inclusive. E aí eu vi essa oportunidade, porque o lance de ser músico tocando na noite foi algo que nunca me atraiu, sobretudo porque é um trabalho mal remunerado. Claro que a gente tem músicos bem remunerados, mas é muito mais difícil você entrar numa banda grande, tocar com um artista famoso e conseguir ter um cachê legal. Então eu nunca fui muito atraído por isso.

Já nas redes sociais, na parte digital, eu vi várias oportunidades para dar aula online, vender curso, fazer vários tipos de atuação. Gravações online, também, foi o que eu comecei a fazer desde muito cedo. Então eu acho que eu já tinha definido esse lance de usar o cenário digital para construir minha carreira. Aliado a isso, tem o lance dos concursos, que eu venci vários concursos, acabei ganhando muito equipamento das empresas, acabei fazendo contato com as empresas também, me tornando artista de várias empresas, e aí tocando em feiras. Então eu comecei a entender todo esse nicho que dava para remunerar.

E qual é a referência do Satriani na sua estrutura de composição?

O lance do Satriani, para mim, é muito claro o jeito que ele faz e é essa parte da estrutura. Você consegue definir parte A, parte B, ponte e refrão, depois volta, às vezes ele faz uma melodia, depois faz a mesma melodia uma oitava acima. Então tem muito claro como se fosse uma música cantada mesmo com letra. E eu sempre gostei disso daí e acabei levando para as minhas músicas.

As minhas músicas praticamente todas você também vai identificar essa estrutura de ter refrão, ter um clímax, ter uma parte que é mais como um solo. Apesar da música inteira ser um solo de guitarra, assim, tem umas partes que são mais dedicadas a esse freestyle, ou às vezes improviso, ou até uma composição mais técnica mesmo, mas eu acabo voltando pro tema inicial, outro refrão, alguma melodia específica para tentar prender a atenção do ouvinte.

Creio que o grande barato de você fazer música instrumental é você conseguir não ser apenas exibicionista, não mostrar tipo “isso aqui eu sei tocar”, beleza, mas aí o cara ouve uma vez e “legal, ele toca bem”, mas não tem vontade de ouvir de novo. Então eu procuro usar elementos e recursos que explorem bem toda essa parte da composição e eu gosto muito de algumas coisas, exemplo, fazer melodias com harmônicos, harmônico natural. 

E quais são as técnicas que você hoje mais utiliza e as que você mais desenvolveu na sua expertise de guitarrista?

Hoje em dia, sem dúvida, o que eu mais utilizo é palhetada alternada e sweep picking, são duas técnicas que eu utilizo bastante nos meus solos. Eu gosto muito de tapping também. E aí, os derivados, a palhetada híbrida que é você economizar o movimento, o economy picking aliás, o hybrid picking seria junto com os dedos, eu não uso tanto, muito pouco, mas o lance do economy picking, slide, bend, essas técnicas de expressão mais básicas que acho que dão toda a vida à parte melódica.

E como equilibrar técnica, emoção e expressividade? 

O mais importante é pensar na música como um todo. Ter um contexto ali e tocar para o que aquele contexto está pedindo. Se você está num contexto, quando eu digo contexto eu quero dizer a harmonia, o backing track, a base levada, o peso geral, se é uma música mais pesada, se é uma música mais tranquila. Então assim, se você está numa base ali que é riff, com distorção e tudo mais, aí solta o braço e vai sem medo. Mas se você está de repente numa balada, um negócio mais tranquilo, eu acho que vale muito mais a pena você investir nas partes melódicas.

Eu procuro sempre tentar contar uma história, com começo, meio e fim, usando as melodias, e aí você usa a parte técnica, a parte mais rápida, as frases, os licks, todos os recursos técnicos que você tem na manga, apenas para dar um brilho especial ali.

Então, é importante ir fazendo essa dosagem da parte técnica e pensar sempre que você tem que tocar para a música e não só para o seu gosto pessoal. 

Como você faz para evitar vícios e repetição ao estudar guitarra, e qual é a sua rotina de estudos para manter o som sempre interessante?

Gosto muito de estudar com metrônomo, tentar cravar o tempo e deixar tudo limpinho, mas vejo que a aplicação é muito mais importante. Quando ensino, procuro mostrar o exemplo já aplicado. Pegamos um lick, padrão de palhetada ou sweep, e mostro como aplicar dentro de uma levada, um backing track, um contexto harmônico, para o aluno entender e reproduzir.

Nos meus próprios estudos ou músicas, encaixo esses recursos técnicos nas melodias, evitando algo massivo ou exibicionista. A melhor forma de desenvolver isso é tocando. Para meus alunos, passo exercícios de criação de melodias: colocar uma backing track, criar um motivo melódico em loop, e depois inserir frases técnicas, arpejos ou licks, voltando sempre à melodia, dosando a técnica.

É essencial ter contato com a harmonia e o contexto do que se toca para desenvolver a parte melódica de forma natural e musical.

Você já comentou algumas coisas, mas queria que desse uma dica para quem está nos assistindo: como estudar hoje sem cair na repetição automática?

É importante primeiro ter disciplina, que hoje em dia, eu reconheço, é mais difícil justamente por esses fatores de estar muito exposto a telas, a conteúdo e à informação o tempo todo. Então não tem como: se você quiser evoluir, tem que ter a disciplina de parar e fazer. E é curioso que aqui em casa, meu filho tem seis anos e ele pegou um gosto pela guitarra que… Eu tinha esse gosto quando tinha 15 anos. Ele, com 6, desenvolveu isso a ponto de desligar o Playstation e ir tocar guitarra.