
Há guitarristas que tocam bem. Há os que soam bem. Deleo é dos que fazem as duas coisas — e ainda pensam sobre o porquê de cada escolha.
Criado na igreja, onde a música entrou pela porta da observação antes mesmo de entrar pelas mãos, ele construiu uma trajetória que passou por alguns dos projetos mais relevantes da música cristã contemporânea brasileira: Alessandro Vilas Boas, Morada e Théo Rubia. Em cada um desses contextos, não foi apenas mais um guitarrista no palco. Foi alguém que ajudou a definir como aquele som deveria soar.
Seu timbre — frequentemente descrito como grande, espacial, envolvente — não nasceu por acaso. É resultado de anos de escuta, de erros, de uma virada de chave que ele situa entre 2015 e 2016, quando entendeu que tocar bem não era suficiente: era preciso soar bem dentro do coletivo.
Hoje, Deleo acumula também o papel de co-criador: é embaixador da Benson, marca com quem ajudou a redesenhar instrumentos e reposicionar uma identidade no mercado. Ao mesmo tempo, mantém sua parceria com a Duesenberg — marca alemã que ele usava há anos antes mesmo de ser notado por ela.
Nesta conversa, ele abre o processo. Fala sobre os primeiros passos, as escolhas de equipamento, a cadeia de sinal que constrói seu estéreo característico e o que pensa sobre carreira, parcerias e autenticidade. Uma entrevista para quem quer entender não só o som, mas o raciocínio por trás dele.
Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no Spotify ou no YouTube.
Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Deleo.
Para começar, conta pra gente como foi o primeiro momento que você viu uma guitarra e entendeu que estava diante do caminho que queria seguir!
Sou da igreja há muitos anos. Desde muito novo, minha mãe já me levava para os ensaios. E aí, cara, eu sempre gostei de louvor, de música… Eu lembro que quando eu era novinho eu ficava na primeira fileira batucando, eu achei que eu ia ser baterista.
Mas, por volta dos 14 anos, minha tia me deu um violão que estava parado, e foi ali que tudo começou a mudar. Comecei a estudar todos os dias, tirar músicas de revista e criar uma rotina, mesmo que ainda fosse só um hobby.
Ao mesmo tempo, eu sempre tive dificuldade na escola com matérias mais tradicionais, e isso preocupava meus pais. Só que, quando comecei a tocar, percebi que tinha uma facilidade diferente ali.
Foi nesse momento que entendi que a música poderia ser mais do que um interesse — era algo natural e o caminho que fazia mais sentido seguir.
Você começou com o Alessandro Vilas Boas ou teve algo antes disso?
Sim. Vou tentar fazer uma linha do tempo. Meu começo foi numa igreja chamada Casa Firme, que tinha um grupo de louvor conhecido como Ministério Zoé. Ali foi minha maior escola. Era tudo muito comunitário, sem pressão musical, mais um ambiente de aprendizado. Tocávamos mais localmente, com poucas viagens, e todo mundo ainda era adolescente.
Depois disso, considero meu início profissional no Ministério Ipiranga. Foi onde comecei a viver a rotina de estrada, viagens e grandes públicos. Ali tive contato com músicos mais experientes e precisei lidar com responsabilidade musical de verdade, como executar introduções marcantes sem margem para erro.
Por volta de 2017, durante uma viagem para Moçambique, surgiu o convite para tocar com o Alessandro Vilas Boas. Eu conhecia pouco além de algumas músicas, mas aquele momento coincide com o surgimento de um novo movimento dentro da música cristã brasileira. Alessandro, junto com o Morada e outros artistas, trouxe uma nova estética sonora.
Como surgiu, então, a oportunidade de tocar com o Morada?
Fiquei três anos na banda do Alessandro. Nesse período, já existia proximidade com o Morada, principalmente por conta da turnê Som do Reino. Quando surgiu a oportunidade de entrar na banda, com a saída do guitarrista anterior, foi um movimento natural.
No grupo Morada, tive meu maior alcance. Foi uma fase muito marcante, apesar de ter durado cerca de três anos. Precisei mudar de cidade, sair de São Paulo e ir para Taubaté. Foi uma mudança grande de rotina e estilo de vida. Ao mesmo tempo, participei de projetos muito relevantes, incluindo gravações importantes que ampliaram ainda mais minha visibilidade.
E o trabalho com Théo Rubia? Como aconteceu?
A pandemia interrompeu tudo por um tempo. Em seguida, comecei a tocar com o Théo Rubia, onde fiquei por quase quatro anos. Foi um novo desafio, porque o som dele pedia uma abordagem mais voltada ao drive e a uma estética mais próxima do rock. Precisei me adaptar e explorar novas referências, o que também influenciou o resultado final do trabalho.
Muita gente comenta que houve uma mudança na sonoridade quando entrei no projeto, principalmente nas guitarras. Acho que isso veio justamente dessa mistura de referências e da tentativa de trazer algo diferente para o som.
Resumindo, os projetos que mais marcaram minha trajetória e me deram visibilidade foram Alessandro, Morada e, depois, o trabalho com o Théo. Mas é curioso como, até hoje, minha imagem é fortemente associada ao Morada.
Te acompanho no Instagram e vejo que você já teve várias guitarras. Como está seu setup atualmente?
Devo ter umas oito, nove guitarras. Tenho a Duesenberg, que uso há muitos anos, e hoje sou embaixador da Benson. A gente vai falar sobre isso e tudo mais. Mas hoje eu tenho só esses dois modelos, que são essas duas marcas que para mim têm tudo a ver com o meu som e com a história que eu criei.
Conta para nós, então, como é que você se tornou embaixador da Benson? O que aconteceu nesse meio do caminho?
Eu cheguei a me aproximar da PRS através da Pride, que representa a marca no Brasil. A ideia era trabalhar junto, mas eu senti que não teria espaço para construir algo autoral ali.
A PRS é uma marca consolidada, com decisões vindas de fora, e a Pride atua mais como distribuidora. Eu queria participar de um projeto em que pudesse desenvolver algo do zero e também ter retorno financeiro com isso.
Nesse meio tempo, comecei a me envolver com a Herton, inicialmente com violões, e isso me aproximou de algumas pessoas do mercado. Foi aí que surgiu o convite para conhecer melhor a Benson.
No começo, eu não me interessei. A marca oferecia instrumentos que não me representavam. Mas, quando me apresentaram o projeto, percebi que existia uma oportunidade real de construir algo diferente.
A proposta era justamente reposicionar a marca, criar novos modelos e desenvolver uma identidade. Aquilo me chamou atenção, porque era exatamente o que eu buscava: participar da criação e não só usar um instrumento pronto.
A partir daí, começamos a desenhar as guitarras juntos, pensando em construção, estética e proposta de mercado. Foi um processo muito intenso e, ao mesmo tempo, muito gratificante. Hoje, o mais interessante é ver a resposta do público. Em várias regiões do Brasil, especialmente fora dos grandes centros, a marca tem ganhado força e aceitação.
A ideia sempre foi essa: oferecer uma guitarra com identidade, boa construção e preço competitivo para quem está nesse nível de investimento. Além disso, conseguimos trazer um visual mais moderno, que conversa com uma nova geração de guitarristas, sem perder totalmente a referência clássica.
Tem sido um processo muito positivo, e o mais importante é continuar evoluindo o projeto com os pés no chão e ouvindo o público.
Eu falo que tem uma coisa muito interessante em instrumentos intermediários: eles precisam ser passíveis de upgrade. Tive essa experiência quando comprei uma Telecaster para dar aula. Ela acabou soando melhor do que várias outras na loja, mesmo sendo de uma marca que, na minha cabeça, não era boa no passado, mas que foi relançada.
Isso está acontecendo muito hoje. Várias marcas estão passando por um processo de ressignificação. Muitas que tinham uma imagem negativa estão voltando com uma proposta diferente. O nome da marca continua tendo peso, porque já existe uma história. Mesmo que em algum momento o produto não tenha sido bom, ainda é uma marca consolidada no mercado. O mais interessante é quando entra uma nova equipe com outra visão e consegue mudar essa percepção. Hoje é comum ver músicos redescobrindo marcas e reconhecendo essa evolução.
Comprei uma guitarra intermediária, só para dar aulas. E aí eu fiz upgrade de ferragens, tarraxas, captadores, praticamente tudo. No fim, sobrou a madeira da guitarra, mas ela virou uma das que eu mais uso. E muita gente pergunta se é a mesma da loja, e eu sempre digo que a base é a mesma — ela permite esse crescimento. No caso da Benson, ela já vem com ferragens e captadores Wilkinson, então já parte de um nível intermediário bom. A ideia é essa evolução também, certo?
Sim, isso mesmo. Uma guitarra nessa faixa de preço não tem como vir com ferragens top de importação, porque isso sozinho já custaria quase o valor do instrumento. Mas o que realmente importa é ter uma base sólida. A Benson já vem com componentes confiáveis, como Wilkinson, que é uma marca respeitada. Para mim, os pontos principais são afinação e conforto. O restante é ajustável. Eu costumo trocar captadores e tarraxas porque tenho essa possibilidade e busco extrair o máximo do instrumento, mas o essencial — corpo, braço e estabilidade — continua o mesmo.
No fim, guitarra é algo muito pessoal. Não é como comparar especificações técnicas frias. É sobre encaixe na mão, resposta ao toque. Já toquei em guitarras mais simples que me agradaram mais do que modelos muito mais caros.
Eu também penso assim. Às vezes a melhoria é pequena, mas traz mais segurança. Em alguns casos muda muito, em outros é coisa de 5%, mas faz diferença no uso.
Exatamente. No meu caso, muitas modificações são mais por segurança do que por necessidade. Mas, sendo bem sincero, as Benson que usei nunca foram guitarras problemáticas em afinação. E eu sempre deixo isso muito claro, porque hoje ninguém é bobo. Não dá para vender uma ideia que não é real.
Eu modifico porque posso e porque quero extrair o máximo, mas a guitarra original já entrega muito bem pelo valor. Tem muita gente usando a configuração de fábrica e tirando um som excelente. Isso sempre aconteceu. Quem usa guitarras nacionais já está acostumado a fazer upgrades. É uma prática comum e saudável.
No fim, é uma questão de escolha. Muitas vezes você investe em upgrades e chega em um resultado que custaria muito mais caro em outro instrumento.
E tem também a questão da autenticidade nas parcerias. Muita gente aparece com a marca, mas no palco usa outra coisa. Como você vê isso?
Eu procuro ser muito verdadeiro com o que uso. Inclusive, recentemente levei para um show tanto a Duesenberg quanto a Benson, justamente para entender melhor o papel de cada uma.
A Duesenberg é uma guitarra incrível, extremamente estável e com uma construção impecável. Mas ela tem uma pegada mais firme, com braço maior, o que muda a tocabilidade. Já a Benson, por ser mais confortável, me permite executar algumas ideias com mais facilidade. Certas frases soam com mais naturalidade na Benson.
Então não é sobre qual é melhor ou pior. É sobre contexto. Cada instrumento tem sua função.
Além disso, tenho testado bastante equipamentos. Um exemplo foi o captador Alnico II, que tem uma saída mais moderada e mantém o clean mais definido, sem comprimir tanto. Isso fez bastante diferença no meu som, principalmente em comparação com captadores de alta saída, que acabam limitando essa dinâmica.
E como surgiu a parceria com a Duesenberg?
Desde 2017 eu uso uma guitarra Starplayer TV da Duesenberg. Sempre gostei muito da marca e acabei utilizando em vários trabalhos que tiveram bastante alcance na internet.
Mesmo assim, eu nunca imaginei que eles olhassem para mim, até porque a marca não tinha presença com artistas brasileiros. Em um momento, cheguei até a tentar contato, mas não tive retorno.
Os anos passaram e, de forma inesperada, eles começaram a curtir minhas postagens e me seguir. Aquilo já foi muito significativo para mim, porque sempre tive o desejo de, pelo menos, ser notado pela marca que eu já usava há tanto tempo.
Depois disso, entrei em contato para agradecer, contei um pouco da minha história com a Duesenberg e compartilhei alguns trabalhos que gravei usando as guitarras. Eles receberam isso de forma muito positiva e me colocaram em contato com o Chris, que faz parte da equipe.
A conversa evoluiu rapidamente e ele me ofereceu uma parceria de artista. O que mais me chamou atenção foi a política deles: não há contrato formal nem exclusividade. A ideia é simplesmente manter uma relação genuína, baseada no uso real do instrumento.
Acabei adquirindo uma guitarra por um valor simbólico, e a ideia inicial era buscá-la pessoalmente na Alemanha. Por questões de tempo e logística, isso não foi possível naquele momento, então eles enviaram o instrumento.
Agora, tenho como plano fazer essa visita no futuro e conhecer a equipe de perto. Foi uma experiência muito marcante, principalmente pela forma respeitosa e simples como tudo aconteceu.
Mais do que qualquer acordo, o reconhecimento de uma marca que eu já admirava foi o que realmente fez diferença para mim.
Vamos conversar sobre a sua cadeia de sinal. Tenho visto que você trabalha com variações entre L e R para criar um som mais aberto e espacial. Como você estruturou essa cadeia de sinal e pensou esse estéreo mais amplo no seu timbre?
Para mim, o estéreo tem muito mais a ver com tamanho e espaço do que simplesmente usar delay ou duas caixas. É sobre criar um som grande, envolvente. Aquele timbre que abraça, que tem sustain, que você sente.
Som “molhado”.
Correto! Pode chamar de som molhado, som cremoso… quem toca entende. É essa sensação de profundidade. E o estéreo, para mim, serve muito mais para isso do que só duplicar sinal.
Minha cadeia começa com um transmissor da Xvive, que tem sido muito estável, principalmente por trabalhar em uma frequência menos congestionada.
E foge dos celulares também, né?
Foge, sim. Isso ajuda muito ao vivo. Eu uso ele praticamente como afinador também, já integrado no setup.
Depois disso, entro no compressor, que é algo que uso há anos. Gosto muito da proposta do 1176, é uma referência clássica para mim. Em seguida vem o oitavador, que eu uso depois do compressor porque sinto que ele responde melhor assim.
Depois disso entram os drives. Eu gosto de manter os drives antes das modulações. Hoje uso dois principais, com uma combinação que me dá bastante versatilidade sem complicar demais.
Também uso um terceiro drive mais completo, com MIDI e presets, mas deixo ele praticamente fixo. Eu prefiro praticidade. No palco, quanto menos coisa para mexer, melhor.
Depois dos drives entra o pedal de volume e, em seguida, as modulações. Uso vibrato há muitos anos e também uma unidade multi-efeitos mais como suporte, para acessar tremolo, slicer e outros efeitos específicos.
Quando você começou a se preocupar com timbre e o que te levou a explorar pedais e efeitos?
Eu passei muitos anos sem me preocupar com o timbre. Era basicamente guitarra com drive ou clean, tentando soar como minhas referências, focando muito mais na tocada do que no som em si.
Essa virada começou entre 2015 e 2016, quando conheci o produtor Thiago Sugihara. Ele tinha acesso a muitos equipamentos e me mostrou, na prática, como o timbre influencia dentro de uma banda. Foi ali que percebi o quanto ainda havia para explorar nesse aspecto.
Até então, eu pensava a guitarra de forma isolada. Mas, dentro de um contexto de banda, o som precisa encaixar na mix, ter função e identidade. Foi nesse momento que comecei a entender melhor o uso de pedais, dinâmica e construção de timbre.
A partir disso, fui buscar referências em bandas e não só em guitarristas solo. Descobri que a combinação de uma boa tocada com um bom timbre faz toda a diferença no resultado final.
Hoje, enxergo que o equilíbrio é essencial. Só técnica não sustenta um show, e só timbre também não. O que realmente funciona é saber quando tocar e como soar dentro do coletivo.
E o que um pedal precisa oferecer para ficar no seu board por muito tempo?
Estou sempre testando equipamentos novos. Mas, ao mesmo tempo, mantenho uma base muito bem definida no meu som.
Por exemplo, não faz sentido trocar um drive transparente por uma distorção mais pesada. Quando eu mudo algo, procuro substituir por outro pedal dentro da mesma proposta. É uma evolução, não uma quebra de identidade.
Testar coisas novas é importante para não ficar desatualizado. Então estou sempre experimentando, mas sem perder esse conceito central do meu timbre.
Alguns equipamentos acabam se tornando fixos. O BigSky, por exemplo, está comigo desde 2015. Já testei e até recebi outros reverbs, mas ele nunca saiu do meu setup.
Já o Timeline eu substituí pelo Ventus, da Sobies — marca brasileira de pedais — que me atendeu melhor dentro do que eu buscava. No meu caso, delay e reverb são a base do som, então preciso estar completamente seguro com essas escolhas.
Para finalizar, vamos falar sobre mercado! Qual dica você daria para o músico conseguir viver bem, ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, não ficar preso a uma única fonte de renda?
Hoje, é muito difícil ter liberdade financeira na música sem estar na internet. Não precisa virar influencer, mas é essencial entender o digital e encontrar uma forma de se posicionar de acordo com a própria personalidade.
Além disso, viver de música hoje exige diversificação. A técnica sozinha não sustenta mais a carreira. O mercado valoriza músicos completos, que entendem de produção, gravação e sabem se encaixar no contexto da banda.
A internet abre várias possibilidades: cursos, mentorias, produção, conteúdo. O importante é ser verdadeiro, encontrar sua linguagem e transformar isso em algo sustentável.