
Mateus Asato, um dos principais nomes da guitarra contemporânea, lançou seu primeiro álbum solo, ASATO, marcando o início de uma nova fase em sua trajetória artística.
Dono de uma interpretação extremamente sensível e técnica, o guitarrista já vinha conquistando o público mundial por meio de seu trabalho online e também por participações em turnês com artistas de grande alcance, como Bruno Mars, Jessie J e Tori Kelly. Ainda assim, diante das inúmeras possibilidades que sua carreira oferecia, decidiu consolidar definitivamente sua identidade musical com um registro instrumental de composições inéditas, com a guitarra no centro da narrativa sonora.
Para a gravação do disco, que reúne composições concebidas em diferentes fases de sua trajetória, Asato optou por uma abordagem aberta e flexível. Em vez de se restringir a um único ambiente ou a uma metodologia específica, explorou múltiplas formas de captação e construção de timbres, ampliando as possibilidades sonoras do projeto.
O resultado é uma combinação equilibrada entre recursos analógicos e digitais. Entre os equipamentos utilizados, destacam-se amplificadores como o Matchless DC30 e o Bogner Shiva, que convivem com soluções tecnológicas modernas, como o Neural DSP. Essas escolhas reforçam a ideia de que diferentes ferramentas podem coexistir em um mesmo projeto artístico, ampliando as possibilidades sonoras sem abrir mão de nenhuma delas.
Outro elemento fundamental para a construção dos timbres é a guitarra Suhr Mateus Asato Signature. Baseado no conceito clássico de uma Telecaster, o instrumento foi desenvolvido sob medida para as exigências do guitarrista e contribui diretamente para a fluidez e a identidade de seu fraseado ao longo do disco.
Mergulhando na música de ASATO
Na abertura, “MA” funciona quase como uma vinheta de apresentação. Nela, já aparecem elementos que antecipam parte da atmosfera sonora do trabalho. Em seguida, “Mellow” se destaca pelo uso pontual do efeito de tremolo, recurso que adiciona movimento ao arranjo e cria variações interessantes na dinâmica da música. Já em “Otsukare!”, o foco recai sobre o uso pouco convencional de harmônicos naturais, aplicados de maneira criativa para gerar novas sensações de deslocamento dentro das progressões harmônicas.
A linguagem guitarrística de Mateus Asato se apoia fortemente no uso de double stops, técnica que amplia a densidade melódica mesmo em progressões relativamente simples. Ao longo das faixas, esse recurso aparece com frequência e ajuda a construir uma assinatura sonora bastante característica. Faixas como “Wasted Hit”, “North” e “Change” evidenciam bem essa abordagem, utilizando os intervalos duplos como parte central do desenvolvimento melódico.
Outro recurso recorrente no vocabulário técnico do guitarrista são as chamadas “penta runs”. A partir da escala pentatônica, muitas vezes considerada a mais básica dentro do repertório do instrumento, Asato constrói passagens de grande complexidade técnica. Isso ocorre por meio da combinação de padrões sextinados, cromatismos e abordagens diatônicas ou modais, mantendo a essência da escala como ponto de referência. Essa característica percorre diferentes momentos de ASATO, sendo particularmente evidente em “Kyoto’s Jam”. O mesmo acontece em “too nerdy for pop, too pop for nerdys”, faixa que concentra alguns dos momentos mais intensos em termos de execução técnica, com passagens de arpejos e padrões de três notas por corda.
Por fim, a faixa “HENDRIX” traz referências claras ao estilo de Jimi Hendrix, combinando elementos clássicos do guitarrista norte-americano com a linguagem pessoal do brasileiro. O resultado é uma música que transita entre tradição e identidade própria, culminando em um solo incisivo com uso de wah-wah, recurso que acrescenta expressividade ao clímax da faixa.
Impressões sobre o primeiro voo solo de Mateus Asato
No panorama geral, ASATO apresenta uma ambientação sonora bastante marcante. Em diversos momentos, o disco se aproxima da lógica de uma trilha sonora, construindo paisagens musicais capazes de evocar imagens e sensações que vão além da simples audição. Essa característica amplia o impacto emocional do trabalho e contribui para uma experiência de escuta mais contemplativa. No entanto, essa mesma abordagem também cria certa uniformidade entre algumas faixas. Em determinados trechos, a continuidade estética pode gerar a impressão de que o disco permanece dentro de um mesmo clima por um período prolongado.
Diante desse conjunto de qualidades e limitações, o álbum se apresenta como um trabalho sólido e representativo da linguagem musical de Mateus Asato. Os arranjos reúnem progressões harmônicas refinadas, melodias cuidadosamente construídas e uma execução técnica de altíssimo nível, características que consolidam o guitarrista como uma das vozes mais expressivas da guitarra contemporânea.
Mesmo com alguns momentos de linearidade estética, o tão aguardado registro fonográfico de Mateus Asato cumpre com eficiência a proposta de apresentar sua identidade artística em formato instrumental. A uniformidade estética em certos momentos não compromete o conjunto — ela é, talvez, o preço natural de um trabalho tão fiel à sua própria voz, oferecendo ao ouvinte uma experiência que valoriza tanto a musicalidade quanto a sofisticação técnica do instrumento.
Nota do álbum:
Destaques:
Melhor Progressão Harmônica:
“MA” → Os acordes e dissonâncias causam todo o movimento necessário para o som funcionar como uma introdução ao que está por vir.
Melhor Riff:
“HENDRIX” → Trouxe uma mescla do respeito ao clássico com uma pitada de contemporaneidade e originalidade.
Melhor solo:
“too nerdy for pop, too pop for nerdys” → Um solo no qual Asato mostra tudo que tem, com uma melodia única e técnicas complexas e impecáveis.
Melhor timbre:
“Mellow” → Um som em que o uso de modulação deu um colorido único para o arranjo.