Edição nº 149
Edição nº 149

Hussein Haddad

Uma ode sobre a construção de linguagens próprias na guitarra

Por: Guilherme Montanari

Entre o rock de Boa Vista e a sofisticação da guitarra instrumental contemporânea, Hussein Haddad construiu uma trajetória marcada por curiosidade, técnica e identidade própria. O primeiro contato com a música veio cedo, em uma casa onde ensaios de banda, bateria montada na sala e músicos entrando e saindo faziam parte da rotina. Mas foi ao assistir a um DVD do Guns N’ Roses, ainda na adolescência, que surgiu o estalo definitivo: a guitarra seria seu caminho.

De lá para cá, o percurso passou por bandas de rock, bailes, repertórios extensos e a necessidade de profissionalização, até chegar ao momento em que a música instrumental deixou de ser apenas referência e se tornou destino. Nesta entrevista, ele abre o jogo e fala sobre o início autodidata, processos de composição, projetos, estética do álbum Talking e sua visão sobre técnica, timbre e autenticidade dentro da guitarra instrumental brasileira.


Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no Spotify ou no YouTube.

Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Hussein Haddad.


Como foi que você aterrissou no universo da música?

Vou começar lá pelos meus 9 anos. Meu irmão é pianista, tecladista, tocava na noite — pagode, pop, sertanejo, rock, tocava de tudo. A banda ensaiava em casa. Mas eu, muito pequeno, não tinha interesse por música. O primeiro instrumento que peguei foi bateria, tinha uma montada lá. Toquei alguma coisa, mas não foi pra frente.

Lá pelos meus 13, 14 anos, meu irmão levou um DVD do Guns N’ Roses. Quando bati o olho no guitarrista, falei: “quero aprender a tocar isso”. Minha casa sempre foi uma casa de movimentação musical, sempre tinha gente fazendo um som. Meu padrasto também era baterista de noite e tocava violão. Então eu fui tentando pegar, ficava olhando os outros tocarem de longe, tirando de ouvido. 

Você estudou de forma autodidata ou fez aulas?

O começo foi autodidata. Tive uma aula ou outra com um guitarrista da cidade — pra quem não sabe, sou de Boa Vista, Roraima, do extremo Norte do país. Mas no geral foi meio que autodidata. Tudo que eu fazia era autodidata.

Como era a cena musical em Roraima naquela época?

Eu desenvolvi rápido porque ficava muito tempo com o instrumento. Nos primeiros dois anos eu tocava num violão flat, nem era guitarra, e não tocava com ninguém. Por volta de 2005, 2006, juntei com uns amigos da escola — tinha uns meninos que tocavam e a gente começou a se reunir na casa de amigos. Todo mundo tocava muito mal. Era Mamonas, era o que dava pra tocar. Meu irmão tentou cantar, não conseguia cantar nada. Era uma bagunça, mas era o começo.

Logo entrei pra uma banda de rock. A primeira vez que subi num palco foi num tributo ao Iron Maiden, eu tinha uns 16, 17 anos. Quando fiz uns 17 entrei pra uma banda de baile — aí começou a ficar mais profissional, mais responsabilidade com repertório, com corda. Mas minha onda ali era o rock. Só que rock não dava dinheiro, então fui pro baile.

Essa fase do baile foi mais ou menos quando?

Se eu não me engano, 2006 ou 2007.

E como foi essa fase do baile até o momento em que você decidiu fazer carreira como artista solo, atuando como guitarrista e compositor?

Creio que foi por volta de 2009, quando eu já estava entrando mais nessa onda de ouvir som instrumental. Eu já estava meio de saco cheio de ouvir música cantada e queria mergulhar mais na música instrumental. Nessa época, ali entre 2008 e 2009, eu ouvia um pouco de Joe Satriani, Steve Vai, Yngwie Malmsteen, Jason Becker, aquela galera mais ligada ao shred, e já estava caminhando para uma sonoridade mais complexa.

Naquele momento, eu queria fazer música, mas ainda pensava em algo muito complicado e muito nichado, muito preso ao shred. Até que conheci o trabalho do Guthrie Govan, e isso mudou completamente minha visão.

Até então, eu achava que tocar guitarra bem era basicamente tocar o mais rápido possível e com o máximo de limpeza. Mesmo o Guthrie sendo um guitarrista que também domina isso, ele me mostrou que a guitarra podia ir muito além. Quando conheci o trabalho dele, minha mente explodiu. Eu percebi que dava para fazer músicas com um leque muito maior, mais versáteis, sem ficar preso a algo tão nichado.

Foi aí que pensei: é isso que eu quero fazer. Quero compor música instrumental e estudar outros estilos para trazer tudo isso para a minha realidade. Foi entre 2009 e 2010 que comecei a tentar compor nessa direção.

Como você estudou composição sem uma faculdade formal nisso?

Confesso que não estudo tanto teoria quanto poderia. Minha parte de estudar e desenvolver composição é muito de ouvir. Eu ouço muita música, sou apaixonado por música. Teve uma época que eu ouvia só instrumental e negava a música cantada. Com o tempo descobri que não precisava me limitar.

A parte de composição é mais funda do que o estilo — ela não precisa ser limitada ao tipo de música. Quanto mais eu ouço, mais absorvo a sensação do que quero gerar. E tem uma coisa curiosa: o instrumento que você pega, o pedal, o amplificador que você está testando, eles te dão inspiração para compor. Quando eu pego um contrabaixo, por exemplo — e nem sou contrabaixista —, saem ideias que eu não teria na guitarra. É completamente diferente.

Como você constrói uma música do zero? Qual é o caminho para quem quer começar a compor em casa?

Compor é pra todo mundo, e eu sou um músico muito melhor depois que comecei a compor — muito melhor do que quando tocava baile e tinha um repertório enorme de músicas dos outros.

Eu trabalho de duas formas. Ou crio uma melodia e depois a rearmonizo, ou faço uma espécie de chord melody — melodia e acordes juntos. O importante é gravar a ideia imediatamente. Eu não escrevo no papel, não uso Guitar Pro — gravo. A partir daí eu avalio: essa ideia vai ser o começo, o meio ou o fim da música? Se for o refrão, penso numa introdução, pode ser um riff, pode ser teclado. Depois monto a bateria no plugin, e com bateria e guitarra já tenho uma noção clara do que o baixo vai fazer. Isso já representa 90% da música.

E um aviso: não deixe passar a ideia que parece boba. A gente fala, ah, é meio bobo isso — e pode ser exatamente aí que está a música incrível.

Trabalhar sozinho te liberta artisticamente ou te limita às vezes?

Depende muito de quem vai ser seu parceiro. Às vezes a pessoa não está na mesma vibe que você quer transmitir. Mas no geral, as pessoas agregam muito para a composição. Quando você tem alguém conectado com aquela música, isso aparece no resultado.

No meu trabalho em duo com o Felipe Facó, no FlowingDuo, por exemplo, ele traz influências que eu não consumo — metal progressivo, coisas que não fazem parte da minha rotina de ouvir. Ele vem com ideias de riffs que eu nunca pensaria, e isso agrega muito. Mas isso é trabalho do duo com o Felipe. O meu trabalho instrumental solo vai pra outro caminho, transmite outra sensação. São mundos diferentes.

E como surgiu o projeto  FlowingDuo com o Felipe Facó?

Conheço o Felipe desde 2013, quando fui dar um workshop em Fortaleza. A gente conversava pouco, nunca teve muita intimidade. Em 2024 eu mandei uma mensagem pra ele falando que queria compor alguma coisa juntos. Mandei umas ideias, a gente foi trabalhando, e eu me identifiquei tanto com a parte de compor com ele que falei: a gente precisa fazer um trabalho de verdade, não só um feat.

Surgiu o FlowingDuo. Tem músicas no Spotify, incluindo a “Dryland” — que em tradução livre é algo como sertão, terra seca — e ela tem essa vibe mesmo. O Felipe é do Ceará, tem propriedade pra falar disso. A música partiu de uma introdução e um refrão que eu compus, mas que estava pouco progressiva demais. Eu queria algo com mais sensação de música brasileira. A ideia dele foi colocar uma célula de baião — só que um baião mais moderno. Quem ouve pode falar que não tem nada a ver com baião, mas tem, porque a sensação está lá. E usamos muito dórico com mixolídio sustenido 11, que é muito usado no baião também. Tinha que ser esse nome.

Seu processo de composição parte de uma ideia musical ou de um tema?

A maioria das músicas eu componho e só depois penso no nome. Não componho pensando “vou fazer uma música sobre Marte”. A música tem que me dar o nome. Pode ser que pra outra pessoa aquela música remete a outra coisa completamente — é como falar que o acorde de ré tem cor vermelha. Cada um interpreta de um jeito.

A “Quasar”, por exemplo, que abre o meu álbum recente, foi um desafio técnico antes de tudo. Ela é toda em palhetada híbrida com dois dedos. Mas quando o refrão chegou, aqueles acordes me deram uma sensação de algo absurdo, imenso, brilhante. Aí o nome veio sozinho.

E já que você mencionou o novo disco, Talking, que tal falarmos um pouco sobre ele? 

Esse álbum tem mais a ver com o momento que eu estou estudando e com o que eu quero apresentar como compositor. Eu gosto muito de músicas que, além de ter técnica, eu acho muito legal a parte técnica e tudo mais, mas eu gosto de apresentar músicas que têm melodias, tipo Joe Satriani ou Steve Vai.

Então, assim, é o que eu prezo, né? Inclusive, na verdade, cara, esse tipo de música que eu acho que faço está mais para Brett Garsed e Shawn Lane, na parte de composição. São músicas que têm tema, mas que também são muito focadas na parte técnica.

Você se define como guitarrista de qual estilo?

Falar que sou guitarrista de fusion aqui no Brasil é quase como falar que sou viking aqui no Brasil. É complicado. Me considero mais guitarrista de rock com influências. As minhas músicas são harmonicamente mais simples do que o fusion clássico, mas carregam muito fraseado de jazz, de bebop. Não tenho aquele fraseado mais linear do rock porque passei anos ouvindo outras coisas, e isso foi entrando sem eu perceber.

Os estilos como fusion e jazz são muito amplos pra você se colocar numa caixinha. Mas no fundo eu divido música em duas categorias: música boa e música ruim. Melodia que me interessa e melodia que não me interessa. Independente do estilo.

Como você incorporou linguagens de fusion e jazz no seu rock sem que soasse forçado?

É sotaque. Se você ouve jazz o dia inteiro, mesmo sem estudar teoria, isso vai aparecer no seu jeito de tocar — ritmicamente, frasalmente, você vai interpretar as coisas de um jeito diferente. Comigo aconteceu assim: vim do rock, do shred, e fui ouvindo, ouvindo, ouvindo. Transcrevi muita coisa. Mas o primeiro passo é gostar de verdade. Não adianta alguém falar que você tem que tocar jazz porque jazz é bom. Bom pra quem?

Lembro que a primeira vez que ouvi o Greg Howe achei esquisito, preferia o Malmsteen. Anos depois, quando o Guthrie me abriu a cabeça, voltei pro Greg Howe e pensei: como eu perdi isso? Mas eu não estava pronto antes. Dá tempo ao tempo. Aconteceu com o Alan Holdsworth, com o Scott Henderson — eu ouvia e falava que não dava pra ouvir. Com o tempo virou paixão.

Como você vê a questão de atualizar sonoridades regionais sem soar antiquado?

É o diferencial. Você não precisa tocar com bumbo e zabumba pra ter aquela característica. O Felipe lançou discos em que a música tem toda a sensação brasileira — os modos, as melodias entregam aquilo. Mas quem toca música brasileira pode olhar e falar: não tem nada a ver. Tem, porque a sensação está lá. Mesma coisa com o jazz: você não precisa soar como Wes Montgomery soava nos anos 40 só porque você toca jazz. Se ele estivesse aqui hoje, com certeza buscaria o melhor timbre disponível. Eu sou totalmente a favor de pegar o amplificador antigo e deixar o resultado mais moderno.

Vamos conversar um pouquinho agora sobre instrumentação. O que você tem usado de guitarra?

Já faz uns dois anos mais ou menos que eu tenho usado as guitarras da Strinberg. São guitarras headless. Para quem não conhece, é uma guitarra extremamente leve, com dois quilos e pouquinho.

Para mim, que fico muito tempo sentado estudando, gravando, dando aula e tudo mais, uma guitarra pesada acaba sendo muito cansativa. E tem outro ponto também, que é a ergonomia do instrumento. Não é só a Strinberg que faz guitarra headless, tem outras marcas também, mas essa proposta casa muito bem com a pessoa tocando sentada ou em pé, principalmente sentada.

É um instrumento muito leve, muito fácil de tocar. Então tenho usado isso bastante. No meu disco mais recente, gravei praticamente tudo com ela e com outra que eu tenho também.

E de pedal, pedaleira, o que você tem usado mais em termos de efeito?

Tenho usado basicamente, para drive e clean, o IK Multimedia TONEX como plugin. Em algumas músicas, usei também os efeitos da Neural DSP.

Particularmente, eu prefiro mais o timbre e a captura do TONEX do que os timbres de amplificadores da Neural. Não acho que um seja melhor que o outro, é mais uma questão de gosto pessoal mesmo.

É aquela coisa de identificação: você escuta e pensa “cara, gosto mais desse timbre”. Então, para drive e clean, tenho usado mais o TONEX mesmo.

Você pensaria em simplificar sua música para alcançar mais público?

Não. Eu sigo o que acredito ser a minha verdade. Não vou inserir djent na minha música porque está na moda — só vou inserir se estou consumindo aquilo e acho que agrega ao meu som. É o caminho mais complicado, mas é o único que faz sentido. Dá pra perceber quando o play é falso, quando a música é falsa. É o que eu menos quero fazer.

Como você enxerga o nicho da guitarra instrumental hoje, com as redes sociais?

A música instrumental é e será muito nichada. É muito difícil uma música instrumental atingir o nível de uma música pop. Mas as redes sociais mudaram a velocidade da divulgação — é instantâneo. E tem exemplos claros de que o público existe: show do Kiko Loureiro, do Mateus Asato, da Lari Basílio — lotam casas com música instrumental.

Pra mim, como não sou um cara que sai muito pra fazer show fora, a repercussão é mais online. Vejo principalmente no Instagram pessoas que falam que ouviram o disco e gostaram. Aqui no Brasil o consumo ainda é bem menor. Mas eu sigo fazendo o que acredito.

O que te faz continuar criando mesmo sem retorno financeiro garantido?

A paixão. O cara que disser que ganha muito dinheiro só com guitarra instrumental está mentindo. Mas o amor pelo que faço não tem substituto. Ela proporciona coisas. Mas o que me faz continuar compondo e trabalhando é o amor mesmo — porque eu poderia fazer outra coisa.