Edição nº 149
Edição nº 149

The Trasher

Electric Eye Audio

Por: Guilherme Montanari

Existe uma linha muito tênue entre um pedal de alto ganho comum e um pedal que realmente entende o que o guitarrista de metal procura. O The Trasher, da Electric Eye Audio, claramente se posiciona do lado certo dessa linha.

Desde os primeiros minutos de uso, fica evidente que não se trata apenas de mais um pedal high gain. Fica clara aqui a intenção de capturar uma estética sonora específica — algo que remete diretamente ao comportamento de um Marshall JCM800 sendo empurrado ao limite, mas com um refinamento que resolve problemas clássicos desse tipo de abordagem.

O resultado é um drive que conversa diretamente com o metal dos anos 80, mas sem soar datado ou preso a um único contexto.

Arquitetura e proposta sonora

O The Trasher é um pedal de distorção com abordagem direta, mas extremamente eficiente. Seus controles — ganho, equalização de três bandas (grave, médio e agudo) e volume — oferecem uma base sólida para construção de timbre, enquanto a chave de clipagem adiciona uma camada importante de personalidade.

Essa chave alterna entre dois modos distintos: “New York” e “Bay Area”. Mais do que nomes estéticos, essas posições influenciam diretamente o comportamento do ganho e da resposta de frequência, permitindo transitar entre abordagens mais encorpadas e outras mais agressivas e recortadas.

O interessante aqui é que, mesmo com essa flexibilidade, o pedal mantém coerência sonora. Não há sensação de “dois pedais diferentes”, mas sim de duas variações de uma mesma identidade.

Timbre: peso com controle

O grande mérito do The Trasher está no equilíbrio.

O pedal entrega ganho suficiente para riffs pesados e solos com sustain, mas sem cair em um dos problemas mais comuns desse território: o excesso de compressão ou a perda de definição.

Os graves são firmes e controlados, sem embolar — mesmo em afinações mais baixas ou com palm mutes intensos. Existe um polimento nessa região que lembra muito amplificadores bem ajustados, onde o peso vem acompanhado de clareza.

Nos médios, o comportamento é ainda mais interessante. O pedal projeta presença suficiente para destacar a guitarra na mix, mas evita aquele pico agressivo que pode deixar o som estridente ou cansativo. Isso resulta em um timbre que soa cheio, mas ainda assim equilibrado.

Outro ponto importante é o ataque. O The Trasher não exagera na resposta da palhetada. Em vez de um “click” artificial ou exagerado, ele mantém uma resposta mais natural, o que contribui para uma sensação mais orgânica ao tocar — algo que muitos guitarristas procuram quando querem fugir de sonoridades excessivamente digitais.

Dinâmica e resposta

Apesar de estar claramente posicionado como um pedal de alto ganho, o The Trasher mantém uma resposta consistente e previsível.

Ele não é um pedal focado em limpeza via volume da guitarra — sua proposta é entregar ganho estruturado e pronto para uso. Ainda assim, a forma como ele responde à palhetada e à intensidade do toque demonstra um cuidado na construção do circuito.

A sensação geral é de um pedal que foi ajustado para tocar junto com o músico, e não apenas para empilhar saturação.

Stack: interação real

Um dos pontos mais interessantes do The Trasher aparece quando ele é utilizado em conjunto com um pedal antes para formar um Stack. Testei overdrives distintos, mas a grande surpresa veio com o Mud Killer, também da Electric Eye Audio.

Utilizado antes do Trasher, o Mud Killer funciona como um boost de ganho e, principalmente, como um tightener. Ele comprime levemente o sinal e ajusta a resposta de graves, deixando o Trasher ainda mais focado e definido.

Na prática, essa combinação cria uma sensação muito próxima de um amp sendo empurrado por um overdrive — exatamente o tipo de setup que moldou grande parte do som do metal clássico e moderno.

O interessante é que essa interação não soa forçada. Existe uma sinergia clara entre os dois pedais, como se tivessem sido pensados para trabalhar juntos desde o início.

Construção e consistência

Dentro do universo de pedais boutique, a Electric Eye Audio demonstra atenção aos detalhes.

O The Trasher apresenta construção sólida, componentes de qualidade e uma sensação geral de robustez. Mais do que isso, o pedal entrega consistência sonora — algo essencial para quem utiliza o equipamento em diferentes contextos, seja em estúdio ou ao vivo.

Não há surpresas desagradáveis. O que você regula é o que você ouve, e isso é fundamental para confiança no equipamento.

Aplicação prática

O The Trasher se posiciona de forma muito clara como um pedal para riffs pesados e solos com sustain.

Ele pode funcionar como drive principal em setups compactos, mas também se integra bem a rigs maiores, seja como fonte principal de distorção ou como parte de uma cadeia mais complexa.

Para quem busca uma sonoridade inspirada no metal dos anos 80, mas com controle e definição modernos, ele entrega exatamente o que promete.

Conclusão:

O The Trasher não tenta reinventar o high gain. Ele faz algo mais interessante: refina uma linguagem já conhecida e resolve problemas clássicos desse tipo de timbre.

Com graves controlados, médios bem posicionados e uma resposta de ataque equilibrada, ele entrega um som que remete ao clássico, mas com comportamento contemporâneo.

Quando combinado com um pedal antes pra empurrá-lo, ele ganha ainda mais força, oferecendo uma experiência que se aproxima de um rig completo de amplificador empurrado.

É um pedal que entende o guitarrista de metal — e responde à altura.

Prós:

  • Timbre high gain com definição e controle  
  • Graves firmes e bem resolvidos  
  • Médios presentes sem excesso de agressividade  
  • Boa resposta de ataque (sem exageros)  
  • Excelente interação com pedais de boost

Contras:

  • Pouca limpeza dinâmica via volume da guitarra
  • Focado em um tipo específico de sonoridade
  • Pode exigir ajuste fino dependendo do setup