Edição nº 146
Edição nº 146

Luiz Barreto

Das inovações artesanais ao domínio pleno das guitarras de oito cordas

Por: Guilherme Montanari

Formado em Produção Musical, Luiz Barreto descobriu cedo que sua verdadeira paixão estava na guitarra. Entre sete e oito cordas, encontrou seu universo sonoro, explorando timbres, escalas estendidas e possibilidades infinitas de expressão.

Sua trajetória começou de forma curiosa: usando o violão do pai e softwares antigos, experimentava sons de guitarra antes mesmo de ter o próprio instrumento. A influência da família e a dedicação ao aprendizado foram determinantes para moldar seu estilo e identidade musical.

Hoje, entre shows, gravações e experimentos com tecnologia, ele alia tradição e inovação. Da primeira sete cordas à exploração da inteligência artificial na criação, compartilha como vive a música de forma intensa, artística e autêntica.


Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no, no Spotify ou no YouTube.

Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Luiz Barreto.


Mesmo com formação em produção, você seguiu como guitarrista. O que te levou a se dedicar tanto às sete e oito cordas?

Sou formado em Produção Musical desde 2016, mas nunca me dediquei 100% à produção. Desde muito novo, meu foco sempre foi a guitarra e o desenvolvimento da minha carreira artística.

Quando descobri o poder das sete e oito cordas, não teve volta. Hoje toco uma sete cordas barítona de 26,5 e uma oito cordas com escala fanned fret: nas agudas, mais conforto para bends; nas graves, estabilidade para afinações baixas.

É algo que me fascina, e é um prazer enorme poder compartilhar isso com vocês!

Conta pra gente a história de como você transformou violão em guitarra? Como foi isso?

Isso aconteceu em 2008, antes de eu ter minha primeira guitarra. Eu já tinha contato com a guitarra de um amigo e fiquei fascinado. Na época, também curtia tecnologia e plugins, mas os recursos para guitarra eram bem precários.

Enquanto não podia ter uma guitarra, peguei o violão do meu pai e tentei simular os sons de guitarra. Usei um microfone antigo de computador, coloquei dentro da caixa acústica, liguei em um software de distorção e começava a tocar músicas do Iron Maiden, como The Trooper. Era o meu jeito de experimentar e aprender.

E qual o papel da sua família na sua identidade musical?

Meu pai, mesmo não seguindo carreira profissional, sempre me incentivou muito, principalmente me dando boas referências desde cedo. Além da música popular brasileira, como Tom Jobim, Chico Buarque e Lenine, ele curtia rock e heavy metal, o que me influenciou bastante. 

Com dez anos, eu já ouvia Dream Theater, Steve Vai e tinha ligeira noção do que eram sete cordas numa guitarra. Já imaginava que, guardadas as devidas proporções, algum dia, teria minha própria guitarra de sete cordas.

Como foi que a guitarra de alcance estendido entrou na sua jornada?

Pouco depois que ganhei minha primeira guitarra, já peguei uma Schecter de sete cordas. Cerca de dois anos depois, já estava com a Ibanez Prestige de sete cordas, que foi uma guitarra que eu passei, sei lá, uns quinze anos com ela.

Quando eu descobri a guitarra de oito cordas, aí a coisa ficou ainda mais complexa. Hoje, outras coisas estão surgindo, como guitarras de nove cordas. O próprio Michel Oliveira, aqui do Brasil, já vem explorando a guitarra de nove cordas há alguns anos. Mas confesso que, para mim ainda é exagero, embora quem sabe, daqui a pouco tempo, eu a utilize também.

A partir do momento que você conseguiu sua primeira guitarra de sete cordas, quanto tempo levou até os primeiros shows e como foram essas primeiras gigs?

Um colega meu do ensino médio, em 2008, tinha uma banda de música japonesa. Na época, eventos de cultura japonesa eram comuns tanto em Recife quanto em São Paulo, e muitas bandas tocavam aberturas de animes — uma ótima porta para minhas primeiras gigs. Essas experiências eram totalmente pelo prazer e aprendizado, sem pensar em dinheiro. 

Quatro ou cinco anos depois, comecei a tocar em projetos remunerados, pop rock em bares de Recife, o que fiz por muitos anos. Hoje, foco mais no que quero desenvolver artisticamente, mesmo que nem sempre seja financeiramente vantajoso. 

Comente um pouco sobre seu setup atual!

Como sou parceiro da Norris e da Solar, tenho a oportunidade de testar diferentes instrumentos e equipamentos. Por exemplo, já pude experimentar os pedais Chug da Solar e estou esperando a chegada da guitarra S By Solar, uma sete cordas de ótimo custo-benefício, que ainda não tive a chance de tocar.

E como você avalia a guitarra Solar?

Essa guitarra é, para resumir, uma guitarra de metal. Naturalmente voltada ao metal e seus subgêneros, ela acaba quebrando alguns estigmas. Apesar de ser associada a alto ganho, utiliza captadores passivos com saída média, exatamente como o próprio Ola prefere. Isso mostra que não é obrigatório ter captadores extremamente fortes para tocar metal pesado. Por conta dessa configuração, ela se torna uma guitarra muito versátil, com várias possibilidades de timbre, permitindo fazer praticamente de tudo.

Sem contar a questão da Evertune…

Um dos grandes destaques do instrumento é o Evertune, uma tecnologia relativamente recente. Ele garante afinação 100% estável, tanto em situações ao vivo quanto em gravações. Isso elimina aquela preocupação constante de parar para checar afinação, algo comum mesmo com guitarras de alto nível. Com o Evertune, esse tipo de ajuste simplesmente deixa de ser necessário.

Falando nisso, como você enxerga a questão deste sistema?

O Evertune altera a forma como bends e vibratos funcionam. No modo chamado sweet spot, ainda é possível dar bends, mas com limitações. Por exemplo, o bend máximo fica em torno de um tom, e o vibrato precisa ser feito de cima para baixo, mirando a nota anterior, e não a seguinte. Caso contrário, o vibrato não aparece. É uma questão de adaptação: a tecnologia entrega muito conforto e estabilidade, mas exige que o músico aceite certas mudanças. No fim, tudo depende do que você está disposto a sacrificar em troca desse nível de controle, e, se possível, ter outro instrumento com características diferentes acaba sendo o cenário ideal.

Para finalizar, me conta: qual é a sua preocupação com a inteligência artificial? 

De fato, no primeiro momento que surgiu, principalmente em relação às músicas geradas por IA, eu fiquei atento. Agora, pelo que acompanho, já estão sendo criadas regulamentações para limitar esse tipo de conteúdo, e eu acho que faz sentido. Não sou contra a tecnologia — como falei, desde muito novo, quando comecei a tocar guitarra, já mergulhei no mundo digital. Só anos depois é que comecei a usar equipamentos analógicos.

Hoje em dia muita gente fala sobre IA, e as coisas estão avançando muito rápido, né? 

Comecei de um jeito diferente da maioria, usando pedaleira, recursos digitais e o computador desde cedo. Vejo a IA como uma ferramenta útil: ela ajuda na composição, na criação de pré-produção e na geração de ideias, desde que o ser humano continue sendo o criador principal. 

Usar IA para criar riffs ou sugestões que você depois adapta e grava é válido; já criar uma música inteira só com IA e lançar, para mim, é descartável. O importante é haver regulamentação, consumo consciente e controle das plataformas sobre conteúdos gerados apenas por IA.