Edição nº 146
Edição nº 146

Michel Oliveira

O expoente das guitarras de alcance estendido no Brasil

Por: Guilherme Montanari

Antes de chegar às oito cordas, Michel Oliveira passou por violões simples, guitarras improvisadas e uma curiosidade que nunca coube em padrões. Sua história não começa no metal moderno nem nos palcos internacionais, mas na soma improvável entre o sertanejo raiz ouvido em casa, os riffs dos anos 80 trazidos pelo irmão mais velho e a descoberta da música como vocação dentro da igreja.

Autodidata por necessidade e escolha, Michel construiu sua técnica a partir da escuta, da repetição e da obsessão por entender como o som realmente nasce. Não apenas do amplificador ou do plugin, mas da mão, da pegada e da intenção. Foi assim que as guitarras de alcance estendido deixaram de ser um recurso estético e passaram a ser uma linguagem natural em sua música.

Nesta entrevista, ele fala sobre processo criativo, desafios técnicos, equipamentos, identidade artística e o papel da guitarra como ferramenta de expressão e impacto. Também comenta sua parceria com a Tagima, o desenvolvimento da True Range de 8 cordas, o uso consciente do digital, a ida à NAMM e sua visão crítica sobre o avanço da inteligência artificial na música.

Mais do que uma conversa sobre gear ou técnica, este é um retrato de alguém que entende a guitarra como extensão da própria vivência. Uma leitura essencial para quem vê na música não apenas performance, mas propósito.


Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no, no Spotify ou no YouTube.

Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Michel Oliveira.


Como a música entrou na sua vida?

Minha relação com a música começou muito cedo e veio de três fontes que se entrelaçaram de maneira curiosa. Primeiro, meu pai, que toca violão, viola caipira e violão de sete cordas, me apresentou ao sertanejo raiz da música brasileira. Depois, meu irmão mais velho, que era apaixonado pelos anos 80, trouxe para casa bandas e riffs que mexeram comigo e expandiram meu ouvido musical. 

Mas talvez a maior influência tenha sido a igreja: foi lá que, pela primeira vez, vi uma banda no palco e senti aquela magia de querer viver a música. Foi ali que decidi, ainda criança, que esse era o caminho que eu queria seguir.

Como você começou a tocar?

Tudo começou com um violão Tonante azul. Eu ficava no primeiro banco, tentando imitar o que via, enquanto meu pai me ensinava algumas notas. Um dia, o pastor me deu uma Giannini Tremendinha, dizendo que, se eu cuidasse dela, poderia tocar os hinos da harpa. Foi nessa guitarra que fiz meus primeiros riffs e solos, mesmo usando uma distorção improvisada que era só um efeito quebrado. 

E foi nela que fiz minha primeira “sete cordas improvisada”, furando o headstock e adaptando ponte e nut, só para tentar alcançar os riffs que eu sonhava tocar, inspirados em John Petrucci, Fredrik Thordendal e outros mestres. Essa experiência maluca foi meu primeiro passo real no mundo da guitarra estendida.

Quais guitarristas te marcaram em cada fase da sua vida?

No Brasil, Sidney Carvalho e Juninho Afram foram mestres que abriram meu olhar para a técnica e musicalidade. Entre os 10 e 12 anos, nos anos 2000, aprendia riffs de Mark Tremonti e explorava dedilhados com dois dedos, além de riffs do Greend. Quando entrei no universo das sete cordas, Dino Cazares se tornou referência, junto com Fredrik Thordendal e John Petrucci. 

Sou também muito ligado ao fusion, e guitarristas como Allan Holdsworth me inspiram até hoje. Cada fase trouxe não apenas notas e técnicas, mas uma forma de pensar a música e construir minha própria linguagem.

Como é que você pensa esse play que envolve sétima, oitava ou nona corda?

O caminho para entender o alcance estendido é ter acesso a todo tipo de arte que já foi feita com esse tipo de guitarra. Eu sempre tive uma preocupação, mesmo o Tosin sendo hoje o nome mais importante do alcance estendido, de não soar só como ele. Então eu buscava outras referências. Um cara que me influenciou bastante foi o Charlie Hunter. Ele usa uma guitarra de oito cordas, mas num formato híbrido, com três cordas de baixo e cinco de guitarra, se não me engano. 

Claro que tem muita coisa do estilo Tosin no que eu faço, assim como tem muita coisa do Meshuggah, que são influências de base. Então, o que eu recomendo tanto para quem está aprendendo quanto para quem está ensinando é realmente emergir nesse mundo do alcance estendido. É uma galera bem nerd, que compartilha muita informação e não economiza nada. Os fóruns são ricos em troca de ideia sobre timbre, caminhos, abordagem.

E qual o melhor jeito para começar a aprender a tocar guitarra de alcance estendido?

Até hoje, não existe um método muito fechado para aprender isso. Eu mesmo estou desenvolvendo um curso de guitarra de alcance estendido há alguns anos, e é um desafio. Ou você cai no caminho de um curso de guitarra tradicional com cordas a mais, ou vai para um nível muito avançado da guitarra padrão. O desafio é criar uma didática que funcione especificamente para guitarras de alcance estendido.

No meu caso, o que fez toda a diferença foi mergulhar nesse mundo de todas as formas possíveis: ouvindo música, assistindo vídeos, vendo shows, acompanhando rig rundowns, vendo os caras falarem sobre escala, calibre de corda e como pensam na hora de compor. Acho que isso é uma ótima introdução a esse universo.

Depois disso, vem o lance de adaptar os seus desenhos principais. Não precisa adaptar tudo, mas pegar aquilo que você já toca nas seis cordas: seus shapes preferidos, pentatônicas, arpejos. Se você consegue adaptar isso para sete ou oito cordas, o processo fica muito mais natural do que partir para um método totalmente à parte, com coisas que você não está acostumado a tocar.

Geralmente, quem vai para sete ou oito cordas já é um guitarrista com alguma caminhada. Então é meio ruim dar um reboot completo no cara. O melhor é pegar o que ele já faz e abordar com uma corda a mais. Assim, você desenvolve a identidade do músico e o próprio approach dele de tocar.

Sendo autodidata, como você desenvolveu sua técnica?

Na verdade, eu não me lembro de, na infância ou na adolescência, sentar e pensar: “Hoje eu vou estudar mão direita, vou treinar pegada”. Isso nunca foi algo tão consciente assim. Eu simplesmente ouvia certos riffs, por exemplo os riffs de Bleed, e ficava tentando chegar naquele som.

No começo, eu achava que era só timbre, mas fui percebendo que não era apenas isso. Era como se, entre muitas aspas, eu tivesse que “timbrar a mão”. Precisava acertar a pegada, o jeito de tocar.

Então eu ia ouvindo, mexia no amplificador, mexia na guitarra, ajustava o posicionamento da mão, assistia vídeos. Aos poucos, fui ajustando tudo isso e criando a minha própria linguagem.

E já que estamos falando em técnica, comente um pouco sobre seu curso de guitarra de alcance estendido?

A previsão de lançamento é para o primeiro semestre de 2026 e, depois da NAMM, começo o processo de divulgação. A proposta é realmente ir do início absoluto: conto a história do alcance estendido, explico afinação, timbragem, escalas maiores e menores, pentatônicas, arpejos, além de timbragem com plugins e pedais. Também falo sobre gravação, tapping, thumping, slap guitar e sobre o processo de adaptação do músico, com caminhos mais tranquilos para migrar da guitarra de seis para sete cordas e de sete para oito.

É um curso muito pessoal, mas estruturado de forma didática para que qualquer guitarrista consiga acompanhar. Inclusive, estou estudando a possibilidade de lançá-lo em outros idiomas. Hoje não existe, em lugar nenhum do mundo, um curso completo sobre guitarra de alcance estendido que vá do zero até o desenvolvimento musical. O que existe são tutoriais soltos no YouTube. A ideia é justamente preencher essa lacuna e entregar esse conteúdo para o maior número possível de pessoas. Acho que vai ser um material bem especial.

Como funciona seu processo de criação?

Depende muito do contexto e do tipo de música. Às vezes, surge um riff na guitarra; outras, um grupo de bateria que inspira todo o resto. Começo a desenvolver a ideia, acrescento segunda guitarra, trabalho melodias vocais e registro tudo no home studio. Sou muito ligado à parte rítmica; 80% das ideias surgem de riffs marcantes, que se transformam em ossatura da música. É um processo intuitivo, mas também disciplinado, sempre tentando transformar ideias em algo concreto.

Você tem muitas cordas diferentes, tem muita coisa aí! Mas qual que você tem usado mais atualmente?

Eu gosto muito de guitarra e gosto muito de variar. Variar instrumento, captador, quantidade de cordas. Como a galera sabe, eu curto testar diferentes tamanhos de escala. Gosto de guitarra barítona, gosto de guitarra com escala maior.

Mas hoje eu tenho uma guitarra aqui que está comigo há pouco mais de um ano, por meio de uma parceria. E é essa lindeza aqui: uma Tajima True Range de 8 cordas.

Qual foi seu papel no desenvolvimento da guitarra com a Tagima?

Era um projeto que a Tagima já tinha lançado, mas eles ainda não contavam com um músico de oito cordas. Havia guitarristas de sete cordas, como meu brother Nenel Lucena, mas faltava alguém mais específico do universo de extended range.

Quando surgiu essa necessidade, eu acabei sendo indicado por um amigo que trabalhava lá. A gente conversou, eu gostei do trabalho e do projeto, eles também curtiram o meu trabalho, e assim nasceu essa parceria. Tem sido muito bacana.

Na primeira semana, eu já fui à fábrica, conheci todo o processo e vi a minha guitarra sendo construída. Eu não tive envolvimento direto no projeto original, isso veio antes de eu entrar. Mas, na minha guitarra, eu personalizei tudo do meu jeito: tirei o tone, coloquei captadores ativos e deixei com a minha cara.

Quais equipamentos e efeitos você usa em estúdio e ao vivo?

Da mesma forma que eu fui muito inspirado por esses guitarristas que citei acima, eu sempre fiquei de olho também nos equipamentos que eles usavam. Sempre fui muito fã de Mesa Boogie, principalmente do Dual Rectifier, que era um som muito presente nesse estilo. Depois, eu fui descobrindo o digital. Via que a galera usava muito Line 6, usava o POD. Mais pra frente, descobri também o lance dos plugins, que era algo muito mais acessível. Para músico latino, de periferia, isso é muito importante: conseguir tirar um som bacana com baixo custo.

Tirando as demos, meu primeiro disco já foi gravado com plugin. E, desde então, eu sempre gravei com digital. Já cheguei a usar amplificador valvulado, gear mais caro, mas eu me encontrei muito no digital. Acho que o som do djent, esse som mais moderno, funciona muito bem nesse ambiente. Eu entendo as críticas, mas dentro da minha sonoridade sempre funcionou bem demais. E eu levo isso para o palco também. Ao vivo, eu uso digital.

Eu sou um cara meio raiz nesse sentido. Uso um POD 2.0. É até engraçado falar em “digital raiz”, porque digital nunca é raiz, mas considerando que o POD já tem uns 25 anos, acho que já dá pra usar esse termo. Eu uso o POD 2.0 combinado com IRs. Desligo as simulações de caixa, que não somam tanto para mim, mas gosto muito dos presets.

O que você busca na guitarra além do timbre?

Mais que timbre, busco expressão e mensagem. Minha música precisa falar mais que notas e riffs: quero transmitir algo relevante para quem escuta. Para mim, a guitarra é uma forma de viver, respirar e impactar socialmente. A autenticidade é essencial; não sigo caminhos pop só para agradar, faço música que reflita minha verdade.

Como surgiu o convite para a NAMM?

Tudo começou como um sonho. Quando criança, eu ia à lan house enquanto meus amigos jogavam CS, e eu só queria ver vídeos de guitarra no YouTube. A Expo Music era meu “paraíso musical”. Profissionalizando minha carreira, vivendo da música e da produção, construí minha trajetória e, graças à Tagima, vou me apresentar e ministrar workshops na NAMM, mostrando minha guitarra de 8 cordas e o trabalho da minha banda Orgon. É uma realização pessoal enorme e um passo importante para internacionalizar meu trabalho.

Como você se desafia hoje como guitarrista?

O desafio me tira do conforto e me força a evoluir. Toquei músicas complexas repetidas vezes até alcançar a precisão que busco. Não me contento com riffs fáceis; estudo, repito, limpo e aprimoro cada composição. Não existe música, composição ou arte sem desafio, pois é isso que impulsiona a evolução.

Você se preocupa com o avanço da IA na música?

A cada dia a IA se aproxima do som real, mas ainda vejo falta de criatividade. Ela combina e copia elementos, mas não cria algo genuíno. Para mim, a arte verdadeira ainda depende da sensibilidade e da experiência humana.

Como se imagina daqui a cinco ou dez anos?

Espero estar mais leve, com alguns quilos a menos (risos), continuar compondo e tocando, e expandir meu trabalho internacionalmente. Quero desenvolver os projetos Judas o Outro, Worgohm e principalmente o meu trabalho solo. Se conseguir manter autenticidade e evolução, me sentirei realizado, vivendo plenamente da música que amo e construindo novas histórias.