
Antes de definir sua estética no universo da guitarra, Rodrigo Gouveia protagonizou um percurso marcado por descobertas graduais e decisões conscientes. O primeiro contato com a música aconteceu na casa da avó, longe dos palcos e perto das memórias afetivas. A vivência na igreja reforçou esse interesse, enquanto o estudo do violão clássico, já na adolescência, trouxe disciplina, leitura e base técnica sólida após um início interrompido por dificuldades físicas naturais da idade.
A virada definitiva veio ao assistir ao Oficina G3 ao vivo e ver Juninho Afram executando “Glória”. A partir daquele momento, a guitarra deixou de ser apenas admiração e se tornou objetivo claro. Vieram as aulas, a primeira guitarra e uma rotina intensa de estudos, impulsionada também por referências que mostravam o nível de dedicação necessário para alcançar excelência.
Com o passar dos anos, a experiência profissional e os retornos do público ajudaram a moldar sua assinatura sonora. Influenciado pela sonoridade limpa de George Benson, Rodrigo consolidou o “som clean” como marca pessoal, equilibrando técnica e intenção musical. Nesta entrevista, ele relembra essa trajetória, fala sobre identidade artística e revela como construiu um fraseado que prioriza melodia, narrativa e expressão.
Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no, no Spotify ou no YouTube.
Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Rodrigo Gouveia.
Como foi seu primeiro contato com a música?
Essa primeira conexão aconteceu na casa da minha avó. Eu tinha acesso aos discos dela e tinha um disco de violão clássico do Dilermando Reis. Eu colocava e ficava olhando a capa, o violão, e aquilo me emocionava.
A igreja também foi um lugar onde essa paixão despertou. Eu via os músicos tocando e pensava: “Quem sabe um dia vou tocar”. Meu tio tinha um violão guardado e, depois de insistir, ele me ajudou a entrar numa escola de música. Foi meu pontapé inicial.
Conte sobre suas primeiras tentativas de aprender música! Quais dificuldades você enfrentou logo cedo?
Comecei bem cedo, por volta dos 7 ou 8 anos, mas não foi um caminho direto. O meu maior desafio na época foi físico: minhas mãos eram muito pequenas para o instrumento e eu simplesmente não conseguia alcançar as notas. Por causa dessa dificuldade, acabei desanimando e desisti temporariamente. Só fui retomar os estudos de verdade mais tarde, entre os 13 e 15 anos, quando já tinha mais estrutura para tocar.
E de que forma de que forma essa base inicial de estudos te ajudou na sua formação como guitarrista?
Comecei meus estudos no violão clássico. Embora meu desejo fosse a guitarra, essa base erudita foi fundamental. Estudar violão clássico me trouxe uma disciplina que eu carrego até hoje, além de ter me ajudado muito com a postura correta e, principalmente, com a leitura de partitura. Ter começado pelo clássico me deu uma estrutura técnica e teórica muito sólida antes mesmo de eu migrar para o rock e para a guitarra elétrica.
Quando você decidiu que queria levar a música a sério?
Foi aos poucos. O professor de violão clássico falava para o meu pai que eu estava indo bem. Isso me dava mais vontade de estudar.
Um dia peguei uma revista na escola de música e vi o Edu na capa falando que estudava 8, 12 horas por dia. Aquilo mexeu comigo. Eu voltei para casa pensando: “Para ser bom eu preciso estudar bastante”. E comecei a estudar o tempo todo.
Outra experiência foi ouvir o Oficina G3 ao vivo, o Juninho Afram tocando “Glória”. Eu falei: “Nossa, eu quero isso para mim”. Depois desse show, me matriculei na aula de guitarra e descolei minha primeira guitarra chinesa em Mogi das Cruzes.
Como você descobriu sua identidade musical e por que decidiu focar no “som clean”?
Tudo começou com os feedbacks que recebi. Há cerca de 10 anos, quando comecei a postar vídeos na internet, percebi que as pessoas elogiavam muito mais o meu trabalho com a guitarra clean e o chord melody.
Ao me ouvir e analisar meu próprio som, notei que tinha uma facilidade natural para tocar com o som limpo. Embora eu goste muito de fusion e de usar distorção ou drive — o que às vezes cria um conflito interno, porque também quero tocar esses estilos —, percebi que o som limpo fazia muito mais sentido para mim. Então, decidi ouvir esse feedback, observar onde eu tinha mais facilidade e focar totalmente nisso.
Qual foi o papel da sua passagem pela banda Groove Soul na definição dessa estética sonora?
A experiência com a Groove Soul foi fundamental. Tive a oportunidade de ir para o estúdio e gravar um DVD quando ainda era muito jovem. O líder da banda era um grande admirador da sonoridade de George Benson e da guitarra limpa. Lembro que, logo que entrei para o grupo, ele me deu uma caixa de CDs e disse: “Rodrigo, ouve isso aqui, porque esse é o som da banda”. Era só guitarra clean. Essa fase marcou profundamente a minha história e abriu caminho para que, mais tarde, eu explorasse o New Soul, algo que foi extremamente gratificante para a minha evolução.
Como você trabalha a construção das suas frases para evitar que o solo soe puramente mecânico?
Eu busco muito a questão da melodia, de você realmente cantar o que está tocando. Acho que esse é um exercício fundamental para o guitarrista, porque a guitarra é um instrumento muito baseado em shapes e desenhos. Às vezes, a gente fica preso no desenho da escala e esquece de ouvir a música. Por isso, quando estou estudando, tento vocalizar a frase que estou fazendo. Se eu não consigo cantar aquela linha, é porque talvez ela esteja mecânica demais — com muita técnica e pouca musicalidade.
Qual é a sua filosofia na hora de improvisar? Você pensa no solo como uma estrutura narrativa?
Com certeza. Eu encaro o improviso como se estivesse conversando ou contando uma história. Você não começa uma história gritando, certo? Você começa devagar, apresenta os personagens, cria um clímax e depois chega ao desfecho. No solo, tento seguir essa mesma lógica: começo com frases mais curtas e com mais espaço, deixando a música respirar. O silêncio no fraseado é tão importante quanto a nota que você toca. Se você toca o tempo todo, não permite que quem está ouvindo processe a informação.
Como você equilibra o virtuosismo e a velocidade com a necessidade de ser expressivo?
Eu estudei muita técnica e velocidade, mas hoje meu foco é entender como usar essa técnica para servir à música. O objetivo não é tocar o máximo de notas por segundo, mas sim a nota certa no momento certo. O fraseado precisa ter intenção. Às vezes, uma única nota bem colocada, com um vibrato expressivo, comunica muito mais do que uma escala super rápida de cima a baixo no braço da guitarra. É o que eu chamo de “tocar com o coração”, mantendo o conhecimento técnico apenas como uma base para te dar liberdade.
Na sua opinião, qual é a importância de um músico desenvolver um som próprio para se destacar no mercado?
Eu refleti muito sobre isso: “Quem é o Rodrigo Gouveia e como eu conquisto o meu espaço?”. O conselho que sempre dou aos meus alunos é que, embora tocar bem seja o requisito básico para todos, o verdadeiro diferencial é ter uma identidade e um som próprio. É claro que primeiro é preciso atingir um bom nível técnico e dominar os fundamentos do instrumento, mas, uma vez ultrapassada essa etapa, é essencial começar a pensar no que nos torna únicos. Ter um diferencial é o que nos permite encontrar um lugar no mercado.
Comente sobre o processo de composição e gravação do seu novo disco, considerando que é um trabalho feito à distância.
O produtor, Mateus Oliveira, eu conheci através de um pianista muito legal que fazia backing tracks. Chamei ele, expliquei o que queria para o disco e ele falou: “Oh, tem um amigo meu que é genial, ele faz esse tipo de trabalho”. Foi assim que conheci o Mateus e nos tornamos amigos. Depois desse trabalho, o convidei para gravar um single comigo, para produzir para mim, e foi muito fácil trabalhar com ele. Ele é um cara muito completo, consegue gravar teclado, bateria, baixo, não só guitarra, e tem facilidade de enxergar a música como um todo.
Anos se passaram e, no ano passado, decidimos gravar um disco juntos. Começamos a trocar ideias, ele já tinha várias pré-gravadas, e eu também tinha algumas. Sentamos para definir a estética: queríamos um disco com riffs, improvisação, melodias bonitas, guitarra new soul e guitarra clean. Isso facilitou muito a composição, porque você já tem um norte e evita se perder em muitas ideias simultâneas. Ele me enviava ideias, eu gravava aqui, ele gravava lá, e fomos juntando tudo usando a tecnologia, que tornou o processo bem mais fácil.
Como foi essa experiência de gravar e criar à distância com um parceiro como o Mateus, e o que você aprendeu nesse processo?
Foi oi incrível, especialmente com alguém profissional como ele, que enxerga além da guitarra e tem uma visão completa de arranjo. Trabalhar com ele me ensinou muito sobre arranjos e musicalidade além da guitarra.
Além disso, o Mateus é um guitarrista fantástico, super técnico, estudou com Paul Gilbert online por vários anos, tem uma mão muito boa e um timbre excelente. Gravamos cerca de 10 músicas e estamos finalizando mixagem e masterização. Para mim, foi um aprendizado muito legal, trabalhar com alguém que realmente somou ao projeto.
E pra quando está previsto o lançamento?
Se tudo der certo, na primeira quinzena de abril de 2026.
Esse disco reflete quem você é agora ou quem você está se tornando como artista?
Eu acredito que esse disco é uma evolução, principalmente na questão da composição. Nunca foquei tanto em composição e arranjo como agora. Antes, no meu primeiro disco, gravamos em três dias no estúdio, foi intenso e com muita pressão. Não havia tempo para refletir sobre cada nota ou solo.
Neste disco, tive tempo para escolher melhor cada detalhe, pensar mais e valorizar a melodia e a música como um todo, não apenas a guitarra. O primeiro álbum tinha muito virtuosismo, improvisação e técnica; já este é diferente, mais focado na melodia e no arranjo. Me enxergo de forma diferente nesse projeto, vendo essa evolução de maneira muito legal, ainda mais trabalhando com alguém que entende profundamente de produção musical.