
Alguns músicos descobrem a guitarra como quem encontra um objeto novo. Outros praticamente nascem dentro dela. No caso de Wander Lourenço, a música já era parte da mobília da casa, misturada às conversas, aos ensaios e às histórias de estrada. Filho e neto de músicos, cresceu entre instrumentos, bandas de baile e repertórios que iam do popular ao rock.
Ainda na infância, o impacto do primeiro Rock in Rio deixou marcas profundas. Poucos anos depois, o duelo final do filme Crossroads, protagonizado por Ralph Macchio e Steve Vai, funcionou como um ponto de virada definitivo. O que antes era curiosidade virou decisão.
Da escola rigorosa das bandas de baile ao envolvimento direto no desenvolvimento de equipamentos, incluindo a atuação junto à Vosstorm, sua trajetória revela um músico que transita com naturalidade entre palco, estúdio e tecnologia. Nesta entrevista, ele fala sobre formação, profissionalização, inovação e os desafios reais de viver de música no Brasil atual.
Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no, no Spotify ou no YouTube.
Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Luiz Barreto.
Como foi o seu início na música? O que despertou essa vontade de tocar guitarra?
Meu pai tinha banda de baile e, quando eu nasci, esse ambiente já fazia parte da minha vida. Meu avô também era músico, então cresci com a casa sempre cheia de músicos. A música sempre esteve presente.
Lembro que, aos nove anos, fiquei muito impressionado com o primeiro Rock in Rio. Eu nasci em 1976 e, em 1985, teve o Rock in Rio 1. Tínhamos o vinil em casa e aquilo me marcou bastante. Comecei a me interessar por rock desde cedo.
Mas a virada de chave veio quando eu tinha 13 ou 14 anos, ao assistir ao filme Crossroads. A cena do duelo entre Ralph Macchio e Steve Vai foi muito inspiradora. Foi ali que decidi levar o estudo da guitarra a sério. Até então eu só arranhava o violão, tinha até vontade de tocar bateria, o que é comum nessa fase. Mas depois do filme eu pensei: “Agora eu quero estudar de verdade”.
Passei a me interessar bastante pelo blues, fui pesquisar artistas, mergulhar na linguagem. Foi o momento em que deixei de brincar e comecei a encarar como algo sério.
E como foi começar tão cedo em banda de baile? O que essa experiência te ensinou?
O baile é uma escola gigantesca. Ensina musicalmente, ensina sobre estrada, relacionamento, postura profissional. Você toca de tudo, aprende diferentes estilos, técnicas e sonoridades.
Além disso, naquela época as bandas investiam pesado em equipamento. Eu tive contato muito cedo com guitarras, amplificadores e racks de efeitos de ponta. Essa vivência com equipamentos também influenciou o que faço hoje, inclusive no trabalho como especialista de produtos e na atuação junto à Vosstorm.
Você trabalha também com o desenvolvimento dos produtos da Vosstorm. Como funciona essa colaboração?
Então, são duas coisas. Primeiro, como é trabalhar nessa parte de colaborar no desenvolvimento. Tem uma equipe toda: engenharia, desenvolvimento de projeto, design. É uma grande equipe que faz isso. Eventualmente, a gente sugere produtos, como “seria legal um amplificador com essa configuração, com tantos falantes de tantas polegadas”. A empresa prospecta e avalia. Quando existe essa abertura para um produto novo, eu colaboro com ideias: seria legal ter isso, implementar aquilo.
A partir do momento que isso anda, temos os protótipos, as correções, os recursos, o que dá para fazer, o que dá para adaptar. A gente testa para ver se está legal, se os controles funcionam bem, o que precisa mexer. Até questões de painel e manual entram nesse processo. É uma equipe grande, mas eu trabalho levando a visão do músico, a visão do palco, a visão do usuário para a concepção do produto.
De que forma você ajuda no desenvolvimento e como é trabalhar numa empresa que atua com tecnologia FRFR?
Quando me aproximei da empresa, a princípio seria só review no YouTube e demonstração. Mas eu falei que tinha interesse em ajudar a desenvolver produtos. Com essa proximidade, a linha GX já vinha sendo desenvolvida. Eu já estava com banda e o diretor perguntou o que eu usava para voz. Eu disse qual caixa usava, e ele me mandou umas point sources para testar.
Na época da pandemia, em casa, eu queria testar de alguma forma. Liguei a guitarra. Eu já estava com setup com pedal de IR Loader, que estava começando a se popularizar. Essa linguagem FRFR é tradicional no áudio pro, mas para guitarra era muito nova. Até onde eu sei, a nível industrial no Brasil, a Vosstorm é a única que faz. Mesmo no mundo são poucas, e é difícil comparar em termos de potência com as da Vosstorm.
Quando liguei a guitarra, fiz uma chamada com o diretor e falei: “Escuta isso aqui. Essa caixa está pronta para levar para o palco, parece uma 4×12 soprando aqui”. Falei para fazer uma caixa FRFR para guitarra. Ele disse que precisava adaptar para a linguagem da guitarra. Eles já tinham domínio de amplificador classe D e fonte chaveada, domínio que poucos no mundo têm. Isso resulta em potência sonora.
Pouco tempo depois, em cima dessa plataforma classe D, desenharam o modelo que viria a ser o primeiro da linha Swamp, inicialmente 1×12 e 2×12. A partir dessa proximidade surgiu a linha FRFR da Vosstorm, que acredito que foi destaque no mercado. A GX é muito legal, mas muitas marcas fazem. A FRFR era algo novo e muito útil para quem toca com digital.
Em certa medida, há um pioneirismo, então?
Os primeiros a usar foram a Kemper e a Fractal, depois Quad Cortex. Hoje existem dezenas de pedaleiras, inclusive chinesas, que capturam pedais e amplificadores com muita fidelidade. A ponto de você ouvir numa mix e não conseguir diferenciar se é amplificador real ou captura. Na sensação pode ser diferente, mas na mix, no PA ou na gravação, é difícil distinguir.
Isso trouxe praticidade enorme para quem toca ao vivo. Senão, nem grandes bandas estariam usando digital. E com essa novidade, a monitoração FRFR vem junto, porque complementa. O músico quer ter sua coleção de amplificadores numa pedaleira pequena, mas não quer abrir mão de ouvir no palco. Nem todo mundo se dá bem com fone. O retorno tradicional, mais feito para voz, não reproduz com fidelidade os presets.
Usar emulação digital em amp convencional também não resolve, porque vai colorir o som. Com a amplificação FRFR, você consegue levar para o palco o mesmo som que faz nos monitores de estúdio. O preset que você criou na pedaleira será o mesmo que você vai ouvir no palco e que vai sair no PA. Isso soluciona essa carência.
Quais são, na sua visão, os principais desafios de viver de música no Brasil hoje?
Não acho que viver de música no Brasil seja impossível ou mais difícil do que qualquer outra profissão. Toda área hoje exige adaptação. Assim como nutricionistas, advogados e outros profissionais usam as redes sociais para divulgar seu trabalho, o músico também precisa entender que isso faz parte do jogo.
O que não dá mais é para se limitar a uma única função. Não dá para ser apenas sideman, apenas músico de estúdio ou ter só uma banda autoral. Para viver de música de forma gratificante e sustentável, é preciso agir como profissional de verdade. Aquela ideia romantizada do “rockstar” ficou no passado. Hoje, o músico precisa ter postura, preparo e visão estratégica.
Mas qual seria uma habilidade essencial para ser “forte no jogo”?
Diversificar é fundamental. Você pode ter sua banda, mas também dar aulas, estar pronto para gravações, aceitar gigs como sideman e investir em estrutura, repertório e equipamento. Quanto mais frentes conseguir abrir dentro da própria música, maiores são as chances de retorno.
Isso não é exclusividade do Brasil. Lá fora também é assim. Já ouvi relato de guitarrista de banda grande demonstrando amplificador em estande de feira, trabalhando como qualquer outro profissional do setor. Faz parte da engrenagem.
No meu caso, além de tocar com a Freak Mars e dar aulas de guitarra, também atuo como especialista de produtos da Vosstorm. Trabalho com marketing e relacionamento de artistas, participo do desenvolvimento e testes de produtos e faço demonstrações em feiras. A música continua sendo o centro, mas ela se desdobra em várias atividades. Hoje, viver de música passa, necessariamente, por essa versatilidade.