Edição nº 148
Edição nº 148

Demian Tiguez

Entre o protagonismo da guitarra e a arte de servir a música

Por: Guilherme Montanari

Entre a precisão de um solo bem encaixado e o silêncio estratégico de quem sabe quando não tocar, existe um território onde o guitarrista deixa de ser protagonista para se tornar arquiteto da música. É exatamente nesse espaço que se constrói a trajetória de Demian Tiguez, referência na “guitarra pesada” na cena brasileira.

Com passagens que atravessam o metal, a música cristã e os bastidores da produção, Demian desenvolveu uma visão que vai muito além das seis cordas. Aqui, cada timbre tem função, cada arranjo carrega intenção e cada escolha revela maturidade. Não se trata apenas de tocar bem, mas de entender o papel da guitarra dentro de um ecossistema sonoro maior.

Ao longo da conversa, ele revisita momentos decisivos da carreira, como a entrada no Anjos de Resgate, a adaptação a uma estética mais pop e o aprendizado, nem sempre confortável, de “servir a música”. Também mergulha em sua relação com tecnologia, explorando desde os primeiros softwares até o uso de plugins no palco, com direito a tropeços, soluções criativas e muita experimentação.

E claro, há espaço para histórias que moldam identidade. Da icônica guitarra “furadinha”, nascida de inquietação e criatividade, até o desenvolvimento de um modelo signature que traduz sua personalidade como músico.

Uma entrevista sobre evolução, escolhas e, principalmente, sobre ouvir antes de tocar — porque todo bom arquiteto sabe que o projeto começa muito antes de qualquer nota.


Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no Spotify ou no YouTube.

Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Demian Tiguez.


Você construiu uma carreira muito completa: palco, produção, ensino… Em que momento você deixou de ser só guitarrista e passou a ser um músico completo para o mercado?

Isso ficou muito claro quando entrei no Anjos de Resgate. Mesmo já tendo experiência com outras bandas e produções, ali aconteceu uma virada. Eu comecei a enxergar a música de forma mais ampla — não só guitarra, não só bateria, mas arranjo como um todo.

Passei a pensar mais profundamente nas construções musicais. Já produzia antes, mas ali entendi melhor o papel de cada elemento dentro da música. Foi um amadurecimento mesmo.

Você vinha do metal, sendo guitarrista protagonista, e entrou numa banda com uma sonoridade mais próxima do pop, com referências como Toto e Roupa Nova. Como foi essa adaptação?

Foi mais fácil do que parece, principalmente porque o Dalvimar — que eu substituí — já fazia um trabalho muito bem pensado de arranjos. Ele misturava country, rock e pop de forma muito inteligente.

Mas, vindo de uma pegada mais speed, tive que aprender a segurar a mão. Usar menos distorção, menos drive — coisas que eu adoro.

E é curioso: no pop, às vezes você tem mais guitarras do que no metal, só que distribuídas. Tem clean, overdubs, delays, texturas… Parece simples, mas dá mais trabalho. É outro tipo de construção.

O que foi mais desafiador para você ao entrar no Anjos de Resgate?

Quando o Heraldo me chamou, rolou um impacto profissional. Além de unir o fato de eu ser cristão com tocar numa banda católica — e não qualquer banda, porque eu já era fã do Anjos — ainda tinha o aval do Dalvimar. Eu falei com ele antes de entrar, inclusive, e ele já estava bem doente na época.

Mas a grande mudança mesmo veio com o produtor, o Marcelão. Ele tinha uma estética muito clara que queria manter. Dentro dessa visão, a guitarra era quase um segundo plano — às vezes até com uma função mais próxima de piano — e só aparecia mais na hora do solo.

E mesmo assim, os solos eram mais melódicos do que técnicos. Claro que eu sempre tentava dar um jeito de colocar alguma coisa, mas no começo foi difícil. A parte mais desafiadora foi exatamente essa: aprender a servir a música.

Voltando um pouco na linha do tempo, você era do Metal e de repente apareceu na igreja, tocando numa banda cristã. Como foi esse caminho?

Na verdade, não foi uma mudança tão brusca assim. Eu sempre fui da igreja.

Sou de família cristã, sempre fui à missa desde pequeno, com minha mãe. Então, mesmo na época do Symbols, eu já era católico — só que isso não era muito abordado nas entrevistas naquela época.

E como aconteceu o encontro com o pessoal do Ceremonya?

Então, quando surgiu a oportunidade, não foi uma “virada”, foi algo natural dentro da minha vida. Eu conheci o Danilo Lopes, que vinha do Eterna, dentro da igreja mesmo, na Santa Rita de Cássia.

Um dia ele chegou e perguntou:  “Cara, você não quer montar uma banda cristã de heavy metal?”

Eu achei demais. E assim nasceu o Ceremonya — eu fiz parte da formação inicial.

Você sempre foi um entusiasta de plugins e tecnologia no palco. Como começou essa relação com softwares de guitarra e quando surgiu a ideia de levar isso para o ao vivo?

Eu já usava software há muito tempo para gravar, numa época em que nem o Pro Tools era comum. Comecei no Cakewalk, depois fui pro Cubase, que pra mim já era bem melhor, mas ainda assim eu não me entendia tão bem.

Quando conheci o AmpliTube, aí sim senti que tinha um som muito legal ali. O que me pegou foi a praticidade. Eu já tinha estúdio, gravava com amplificadores microfonados, fazia vários testes, então eu sabia o quanto era difícil tirar som de amp.

E como foi a transição disso para o palco?

Quando entrei no Anjos, que já tinha uma pegada mais tecnológica, isso abriu muito minha cabeça. Eles já usavam in-ear, palco silencioso, tudo muito profissional, principalmente dentro da música cristã, onde sempre foram bem pioneiros nisso.

Foi aí que comecei a levar o digital para a estrada, usando plugins no computador. Mas antes disso teve uma fase importante com o V-Amp.

O que te fez migrar de vez para o uso de plugins no palco?

Foi principalmente pela praticidade e consistência. Com o digital, eu tenho sempre o mesmo som, exatamente igual, independente do lugar. Isso é muito valioso.

E quando comecei a levar computador pro palco, o nível subiu. Eu usava Pro Tools com clique e programava tudo. A pedaleira mudava os timbres sozinha durante o show. Eu deixava ela ali mais como backup.

Mas começaram os problemas também. Computador exige muito cuidado. Já tive situações de alguém pisar no cabo e cair tudo. Depois de algumas dessas, eu falei: não dá pra confiar 100% nisso ao vivo.

E como você resolveu essas limitações do computador no palco?

Aí comecei a testar outras soluções. Cheguei a usar o AmpliTube com iPad, antes mesmo de qualquer endorsement. Ligava direto e o som era incrível. No começo tinha um pequeno atraso, mas nada absurdo. Com o tempo foi melhorando, e você acaba se acostumando.

Hoje estou usando mais pedais, mas ainda acho o iPad uma solução fantástica. Pela praticidade e pelo som que entrega, é difícil bater.

Falando sobre guitarras… Você sempre ficou muito associado àquela guitarra “furadinha”. Como surgiu essa guitarra e qual é a história por trás dela?

Essa guitarra é uma Frankenstein mesmo. A história é muito legal. Eu ganhei essa guitarra em 96, do Seizi Tagima, que é amigo do meu pai há muitos anos. 

Só que quando eu peguei a guitarra, ela era meio Van Halen, meio outro modelo. A parte do corpo era maior, lembrava uma Atelier, mas maior assim. E o que aconteceu? Ela também não tinha o canto tão confortável, não era um acesso bacana pra mim, que gosto de bastante acesso…

E aí foram feitas algumas modificações? 

Sim, a gente reduziu todo o formato. Eu desenhei ela menor. Aí foi um desenho que meu pai fez meio baseado naquele, mas saiu num desenho dele mesmo.

Então a gente deixou ela bem mais “embalada”. Ela também era reta, tipo aquelas Tele antigas. A gente fez aquela cavadinha pro punho, pro braço da mão da palhetada, que me incomodava muito, porque eu sempre usei guitarra tipo Strato, tipo Ibanez. Então é horrível pra quem não está acostumado. Dói mesmo, é diferente o braço. Você faz força.

Então me incomodava muito. Aí a gente diminuiu ela inteira. E ela era muito pesada. Era uma madeira boa, mas pesada mesmo. Ainda é, pra falar a verdade.

De onde surgiu a ideia de furar a guitarra e como isso virou sua marca registrada?

Sempre fui muito fã do Steve Vai, especialmente da fase com o David Lee Roth, em que ele usava uma guitarra toda destruída.

Então eu falei: “pai, e se a gente furasse a guitarra?”. A ideia era diminuir o peso. Meu pai, além de luthier, é artista, então nada foi aleatório. Alguns furos foram pensados para apoio da mão, como na guitarra do Steve Vai, e outros distribuídos com cuidado, inclusive menores perto do jack e alguns atrás, só para reduzir madeira.

No fim, nem aliviou tanto o peso, mas virou uma marca. Eu passei a usar muito essa guitarra no Ceremonya, praticamente só ela, pela pegada confortável. E acabou ficando conhecida como a Frankenstein furadinha.

Como surgiu a ideia de transformar essa guitarra em um modelo signature?

Procurei o Seizi para fazer essa parceria e lançar uma signature. Foi, inclusive, por isso que saí da marca que eu usava antes. Achei que era o momento certo para dar esse salto.

E aí o processo foi bem natural. A gente foi desenvolvendo a guitarra a partir do que eu já usava. Claro que o Rick desenhou junto comigo, sempre pensando: “vamos fazer algo baseado na sua”. Porque o que eu queria, de fato, era uma guitarra de 24 trastes.

No fim, ela acabou sendo uma releitura da minha “furadinha”, com uma pegada meio Wolfgang, meio Van Halen. É uma guitarra menor, com corpo reduzido.

Os furos icônicos da sua guitarra original também estarão presentes no modelo signature? Como foi essa decisão?

Fizemos uma enquete e foi muito legal! Teve muita gente falando pra fazer com os furos. E a gente decidiu fazer só quatro furos, para o encaixe da mão e para ser uma nova guitarra.

Quais são as principais especificações e características desse novo modelo?

É uma guitarra realmente custom, bem invocada. Tem corpo de freijó, braço em roasted maple e escala escalopada da décima primeira até a vigésima quarta casa. E o acesso é absurdo, muito acessível mesmo, ridiculamente acessível.

A gente teve um cuidado muito legal nesse processo, sempre trocando ideia com meu pai, que é meu consultor desde sempre, e com o Rick, que ouvia muito o que a gente falava e traduzia isso do jeito dele, sempre perguntando e ajustando.

Uma coisa importante foi posicionar o captador do braço bem colado no 24º traste, quase em cima mesmo, pra tentar recuperar um pouco de grave, já que nessa posição normalmente se perde um pouco disso.

E sobre os captadores e a parte elétrica, quais foram as escolhas?

Inclusive, isso ainda está sendo definido, mas eu fui pra uma linha bem próxima do que o Satriani usa. Pelo que sei, é algo baseado no 59 — um modelo de captador com características PAF, de saída mais baixa e resposta mais dinâmica. Fiquei dividido entre essa ideia e alguns modelos da Malagoli, mas tudo indica que vou acabar ficando com o Little 59 e o 78 Van Halen, da Seymour Duncan.

Quais recursos eletrônicos e controles a guitarra terá?

A ideia foi colocar Q-switch também. Ela tem volume, chave de três posições e optei por não usar captador do meio. Eu até gosto dessa combinação, mas com dois captadores já consigo timbres bem interessantes, e ainda ganho mais espaço pra palhetar, o que pra mim faz diferença.

Então ela ficou com dois captadores, Q-switch e uma chave defasadora, que eu prefiro em vez de coil split. Ela defasa os dois captadores e abre possibilidades de timbres diferentes. No fim, o mais importante pra mim é ter opções de timbre. 

Quando a guitarra deve chegar ao mercado?

Cara, a ideia sempre foi no segundo semestre de 2026. Porque agora a gente estava com o protótipo. A guitarra ficou muito legal. Então a previsão é essa.