Edição nº 148
Edição nº 148

Gabriel Braga

Tocando, empreendendo e construindo um espaço único na música

Por: Guilherme Montanari

Entre a fé, os timbres em construção e as escolhas que definem uma carreira, a trajetória de Gabriel Braga começou na igreja. Foi ali, em meio a cultos, bandas de louvor e uma rotina musical intensa, que surgiram os primeiros acordes de uma jornada marcada por curiosidade, resiliência e identidade sonora.

Cercado por influências que iam do gospel ao rock clássico, ele construiu sua musicalidade quase como quem monta um quebra-cabeça auditivo, peça por peça, som por som.

Esta entrevista revela o amadurecimento de alguém que precisou recomeçar, adaptar-se e transformar limitações em força. Mais do que evolução técnica, é a formação de um pensamento artístico.


Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no Spotify ou no YouTube.

Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Gabriel Braga.


Como começou sua relação com a música?

Meu amor pela música começou na adolescência. Eu venho de uma família cristã, e o meio cristão é muito musical. A igreja tem essa característica muito forte, de ter banda, ministério de louvor, então isso acaba musicalizando muita gente.

Na minha família, eu fui o primeiro músico dessa geração. Não tinha ninguém em casa que tocava. Mas eu cresci vendo DVDs que minha avó assistia, de artistas como o Irmão Lázaro, e aquilo me despertou interesse.

E tem um detalhe curioso: dentro da minha casa, quase todo mundo era do meio cristão, mas eu tinha um tio que era totalmente voltado para o rock clássico. E ele ouvia muito Pink Floyd, Eric Clapton, B.B. King, Metallica.

Eu não ouvia porque queria, mas porque estava no ambiente. Então, indiretamente, o som de guitarra sempre esteve no meu ouvido. Hoje eu olho para minha identidade e vejo muita influência disso.

Quais foram as principais dificuldades no começo?

Foram várias. Eu venho de uma família simples, então tive dificuldade financeira, dificuldade de acesso a professores e a instrumentos.

E teve uma questão que impactou muito: eu sou canhoto, comecei tocando como canhoto, mas tive que migrar para destro. Muito por influência e também por questão financeira, porque instrumento para canhoto era mais caro e difícil de encontrar.

Teve um momento em que meu violão estragou e eu simplesmente não tinha como resolver. A solução foi recomeçar tudo como destro. E isso foi muito difícil, porque é como se você estivesse avançando e, de repente, a ponte quebra e você precisa voltar tudo.

Mas isso também me deu uma casca muito forte.

Como a igreja contribuiu para sua formação musical?

A igreja foi a minha grande escola. Eu comecei em uma igreja que tinha músicos muito bons, com um nível musical alto mesmo.

E isso gera um impacto muito grande. Quando você toca com gente melhor que você, aquilo cria dois sentimentos ao mesmo tempo: motivação e desespero.

Porque você sai do culto pensando “eu preciso estudar”, mas durante o culto você está tentando sobreviver ali, acompanhando os caras.

Eles tinham muito conhecimento harmônico e mudavam coisas na hora. Às vezes, só de olhar, já decidiam um caminho diferente na música. E para quem está começando, isso é um choque.

Mas foi exatamente isso que me fez evoluir. Desse ambiente veio uma filosofia que carrego até hoje: tocar limpo. Eles falavam muito isso para mim — “se você tocar bem sem efeito, você está no caminho certo”. Então essa base foi fundamental.

Mas a sua busca por timbres começou por curiosidade ou necessidade?

Totalmente por necessidade! Tocando nas igrejas, sempre tive que manejar repertórios muito diferentes. Em um mesmo culto, você podia tocar algo mais suave, depois algo mais aberto, depois algo mais pesado. E eu não conseguia chegar nos sons que eu ouvia nas músicas.

Isso me frustrava muito. Porque eu ouvia algo e pensava: “cara, tem alguma coisa acontecendo aqui que eu não estou conseguindo reproduzir”. E foi essa inquietude que me colocou nesse caminho de buscar entender o timbre. Não foi uma curiosidade técnica no início, foi uma dor prática mesmo.

Como foi esse processo de entender o timbre na prática?

No começo, eu tinha uma visão muito simplista. Eu achava que tudo era pedal de distorção.

Então eu pensava: “ah, esse som aqui é um distortion”. Só que aí eu começava a perceber que não fechava. Tinha algo diferente.

E cada descoberta era um choque. Quando eu entendi, por exemplo, que muita distorção vinha do amplificador e não do pedal, aquilo mudou completamente minha cabeça. Depois você começa a perceber que não é só isso. Tem o overdrive empurrando o amp, tem o delay e o reverb trabalhando no pós, tem a forma como o cara toca.

É como montar um quebra-cabeça. Cada peça descoberta muda a forma de escutar o todo.

Como você chegou à parceria com a Aria Pro II? Você conhecia a marca antes?

Cara, eu sou muito feliz com a parceria. É uma empresa que eu não conhecia, porque era de uma geração antes de eu me tornar músico. Mas quando ela apareceu novamente no mercado, consegui buscar e pesquisar um pouco sobre a história e vi que, cara, falar de Aria Pro II para músico da década de 90 é assunto delicado, sabe? Porque mexe com a memória afetiva.

E qual foi o primeiro contato que você teve com os instrumentos da Aria Pro II?

Foi quando os instrumentos chegaram na Kbça Musical, que é uma loja que hoje eu tenho uma parceria muito forte, e eles foram os primeiros a trazer a Aria Pro II para o Sul. Quando chegou o primeiro lote, eu cheguei na loja e olhei assim — de cara eu enxerguei uma Telecaster Nashville, que é uma guitarra com três single coils. Achei curioso porque é um modelo que quase ninguém faz hoje. E para mim, cara, que toca numa igreja, isso aí é o instrumento mais eclético que tem. Imagina ter uma Telecaster que, na prática, entrega a versatilidade de uma Stratocaster?!

Na hora eu tive muito interesse em descobrir, saber como era o instrumento, toquei e inclusive eu quase comprei. Eu cheguei literalmente a pegar esse instrumento e falar “vou levar, vou comprar.” E eu só não comprei naquela data específica porque eu estava prestes a me casar.

E como surgiu o convite para o workshop e o início da parceria comercial?

Passou um tempo e recebi contato de alguém dentro da Aria Pro II. Eles tinham interesse em me convidar para fazer um workshop na cidade de Porto Alegre. Sem compromisso nenhum — só fazer o workshop, mostrar como funciona o trabalho. 

A ideia era só demonstrar os produtos. A gente marcou a data, eu fiz o workshop na Kbça Musical — muito bacana isso, poder fazer o workshop pela marca justamente lá, que tem a parceria. Logo depois do workshop, recebi uma mensagem de um dos gerentes da empresa dando feedback de que o evento tinha sido algo interessante. E para mim já tinha sido ótimo também.

E como evoluiu para uma parceria mais longa?

Logo depois, a empresa estava buscando se posicionar no Rio Grande do Sul e também na internet no Brasil, e eles me contataram para fazer uma parceria mais duradoura. A gente foi conversando. E eu tenho um respeito muito grande pela marca por uma coisa que eles fizeram, cara — para mim o meu respeito por eles vai além de muitas coisas.

A parceria deveria ter começado antes de setembro do ano passado. O Bruno me mandou mensagem: “vamos fazer acontecer.” Eu falei: “Bruno, eu tô dentro, só que eu vou me casar, eu preciso viver essa estação. Você consegue me dar um tempo para estruturar minha casa?” E a Aria Pro II me deu todo o tempo do mundo para poder ter esse tempo de estabelecer minha casa, os primeiros meses com a minha esposa. A gente começou efetivamente o trabalho em dezembro, janeiro — foi quando começou meu trabalho com a empresa.

E como foi a escolha dos instrumentos dentro da parceria?

Eu já tinha uma guitarra deles, que era essa Telecaster. Aí eu recebi o catálogo. E a Aria Pro, apesar de fazer instrumentos clássicos, tem muitas particularidades que não encontramos em outras marcas. Por exemplo, a Telecaster Nashville — não é uma guitarra com chave de cinco posições no estilo Stratocaster. É uma Telecaster como ela é de fato, com braço, meio e ponte. Mas com o auxílio do push pull, eu tenho a opção de ter as posições paralelas da Stratocaster. Então é um instrumento que eu consigo operar nas duas formas.

Depois da parceria eu escolhi mais dois instrumentos. Decidi fazer uma escolha do clássico com algumas alterações. Peguei uma Stratocaster deles — uma reedição da Fender Strato 62. O básico que a gente olha é uma Strato clássica. Instrumento muito legal, cara. Tanto que eu tive toda a autorização da empresa para fazer upgrades, mas eu quase não mexi em nada. Tenho vídeo tocando ao vivo com aquela guitarra 100% original — numa igreja com 6 mil pessoas dentro — e o instrumento me atendeu super bem.

Vamos falar sobre outra ferramenta de trabalho muito importante: as redes sociais. Elas sempre fizeram parte do seu plano de carreira?

Não, nunca foi um plano estruturado desde o início. Quando eu comecei a postar, não era com a intenção de crescer ou construir uma audiência grande. Era muito mais uma extensão do que eu já vivia dentro da música, principalmente na igreja.

Eu estudava, desenvolvia alguma ideia, algum conceito, e sentia vontade de compartilhar aquilo. Era quase como um registro do meu processo. Só que, com o tempo, eu comecei a perceber que aquilo não estava ficando só no meu círculo. Outras pessoas começaram a assistir, comentar, perguntar.

E aí virou uma chave na minha mente. Eu entendi que aquilo ali não era só sobre mim mais. Tinha gente sendo impactada, gente aprendendo, gente se inspirando. Então deixou de ser algo só pessoal e passou a ter uma responsabilidade maior.

Quando foi, então, que você percebeu que as redes poderiam se tornar parte do seu trabalho?

Foi um processo gradual, não teve um momento exato de “agora virou trabalho”.

No começo, era só postagem. Depois começaram a vir mensagens de pessoas pedindo ajuda, pedindo aula, querendo entender como eu pensava a música, como eu timbrava.

Aí eu comecei a enxergar que aquilo poderia se transformar em algo mais estruturado. Mas mesmo assim, eu nunca quis depender só disso.

Eu sempre tive uma visão de diversificar. Então as redes viraram uma base de comunicação, uma ponte. Elas conectam as pessoas ao meu trabalho, mas não são o trabalho inteiro.

Mas sobre o vídeo que viralizou, o que você acha que fez ele funcionar?

Acredito que foi a combinação de familiaridade com novidade. Era uma música que as pessoas já conheciam, da harpa cristã, só que eu trouxe uma linguagem diferente, uma harmonia diferente. Então aquilo gerou um contraste.

A pessoa reconhece o que está ouvindo, mas ao mesmo tempo se surpreende com a forma como aquilo está sendo apresentado. E isso conecta muito. Porque não é só técnica, é interpretação, é leitura musical.

Depois desse vídeo, o canal começou a crescer de forma consistente. E algo que eu acho interessante é que não foi um pico e queda. Foi um crescimento contínuo.

Atualmente, dentro da sua carreira profissional, qual é o maior desafio: tocar, se posicionar ou empreender? Você foca em uma coisa só ou distribui suas fontes de renda?

Eu fiz faculdade de Administração e, por um tempo, achei que não aplicaria nada daquilo na música. Mas, na prática, eu aplico totalmente na música. Por trás de um músico bem-sucedido, existem várias coisas que não têm relação direta com tocar. Se isso não estiver organizado, você vai ter estresse e instabilidade.

Errei bastante ao longo do caminho, mas fui aprendendo a fazer parcerias, ler contratos e estruturar meus produtos. Hoje, não dependo de uma única fonte. Tenho cursos, mentorias, aulas em diferentes formatos e também faço gravações.

Eu sempre digo: não dá para ter uma fonte só. É preciso ter várias formas de atuação.

E quais são os principais desafios hoje na sua carreira como músico profissional?

Atualmente, um dos principais desafios é a localidade. Moro no Rio Grande do Sul, e a cena musical aqui é um pouco mais limitada. Quando comecei a produzir conteúdo, isso ainda era raro. Hoje já mudou bastante, mas ainda é um ambiente desafiador.

Outro ponto é a mudança cultural. Muitos músicos hoje estão mais preocupados com imagem e presença do que com evolução técnica. Isso impacta diretamente no ensino. Muitos alunos não querem mais estudar com profundidade.

Como professor, eu preciso entender esse cenário para não me frustrar. O mercado funciona em fases, e quem vive de música precisa se adaptar sem perder sua essência.

Existe também uma questão de propósito na sua carreira. Como isso influencia suas decisões?

Certamente! Meu maior desafio é permanecer no meu propósito. Decidi trabalhar exclusivamente com o público cristão. Tudo o que faço está ligado a isso. Não estou dizendo que o mercado secular é errado, mas essa foi a escolha que fiz.

Hoje atuo 100% com músicos da igreja. Isso torna meu público mais nichado, o que traz desafios, mas está alinhado com o que eu acredito.