Edição nº 148
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Guitarra, corpo e longevidade

Como prevenir lesões nas mãos e continuar a tocar por décadas com saúde

Por: Gustavo Morais

A relação entre guitarra e corpo vai muito além da técnica e da teoria musical. Para quem toca profissionalmente ou como hobby, o instrumento também impõe demandas físicas que, sem atenção adequada, podem comprometer a saúde e a longevidade da carreira. 

A seriedade desse assunto, porém, nem sempre é encarada com sabedoria. Afinal, não é incomum buscar ajuda ou melhorar os cuidados somente quando os problemas começam a aparecer. Segundo estudos da literatura médica, até 97% dos músicos de instrumentos de corda apresentarão algum distúrbio musculoesquelético ao longo da vida.

Para entender melhor esse cenário, a Guitarload conversou com o ortopedista Thiago Albeny, especialista em mão e microcirurgia pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. O conteúdo desta matéria foi elaborado com respaldo médico, reunindo informações clínicas, preventivas e práticas voltadas especialmente a guitarristas.

Lesões mais comuns entre guitarristas

Entre os problemas mais frequentes estão tendinites, dores miofasciais por sobrecarga, compressões nervosas como a síndrome do túnel do carpo e do túnel cubital, distonia focal e até artrose. Embora muita gente associe essas condições ao envelhecimento ou ao tempo de carreira, o médico esclarece que esses não são os principais fatores de risco.

O que mais pesa é o aumento repentino da intensidade ou frequência da prática, mudanças técnicas, ajustes inadequados do instrumento, estresse, postura incorreta e até características individuais, como frouxidão ligamentar.

Dor não é o único sinal de alerta

Um ponto importante destacado pelo especialista é que nem sempre há um único sinal claro antes que a lesão se torne mais séria. Dor, formigamento, fraqueza ou dificuldade para realizar tarefas simples, como segurar uma xícara, já são motivos suficientes para buscar avaliação ortopédica.

Ignorar esses sintomas pode levar à cronificação do problema e afastamento prolongado do instrumento.

Postura, ergonomia e o mito da posição ideal

Tocar sentado ou em pé não define, por si só, uma postura melhor ou pior — cada posição sobrecarrega regiões diferentes do corpo, e a escolha ideal depende das características individuais de cada músico. O mais importante é a atenção constante à coluna e aos ombros, evitando compensações excessivas.

O mesmo vale para guitarras. Não existe um modelo “ideal” do ponto de vista médico. Peso, formato e ergonomia precisam ser avaliados individualmente, de preferência com teste presencial antes da compra.

Aquecimento, pausas e rotina saudável

A prevenção passa por hábitos simples, mas consistentes. Exercícios de mobilidade para tronco, ombros, punhos e dedos — combinados com alongamentos e exercícios de resistência com elásticos — ajudam a preparar o corpo para a prática.

Intervalos regulares — como pausas a cada 30 minutos e mudanças de posição durante o estudo — e um estilo de vida saudável fazem diferença significativa na redução de sobrecarga.

Além disso, o trabalho de terapeutas ocupacionais, segundo o médico, é um aliado fundamental para músicos que querem manter a saúde das mãos a longo prazo.

Diagnóstico, tratamento e quando procurar ajuda

Lesões como a síndrome do túnel do carpo podem ser diagnosticadas clinicamente, com apoio de exames como ultrassom, ressonância magnética e eletroneuromiografia. O tratamento conservador costuma ser eficaz na maioria dos casos, especialmente quando iniciado cedo.

A avaliação com um ortopedista especialista em mão é indicada quando os sintomas são intensos ou persistem por mais de sete dias. A cirurgia fica restrita a casos mais avançados ou quando não há resposta ao tratamento conservador.

Música e medicina caminhando juntas

Para Thiago Albeny, a união entre medicina e música é essencial para prolongar a carreira dos instrumentistas. Cada caso precisa ser avaliado individualmente, sem soluções genéricas.

Sendo assim, o conselho final é direto, simples e impossível de ignorar:

“Cuide do seu corpo como você cuida da sua guitarra.”

Uma frase que resume o espírito desta matéria — e lembra que, para tocar por décadas, o instrumento mais importante é o próprio corpo.


O especialista por trás desta matéria

Dr. Thiago Albeny é médico com formação em Ortopedia e Traumatologia, além de ser especialista em Cirurgia da Mão. É membro titular da SBOT e da SBCM, com formação complementar em artroscopia de punho e cotovelo pelo IRCAD América Latina e estágio em trauma do membro superior na Universidade de Giessen, na Alemanha.

Com mais de 10 anos de experiência, atua como professor de residência no Hospital de Base do Distrito Federal (IHBDF), é gestor em saúde pelo Hospital Sírio-Libanês, sócio da COTE Brasília e integra o corpo clínico de hospitais como Sírio-Libanês e DFstar.

Contatos: 

https://drthiagoalbeny.com.br/
https://www.instagram.com/drthiagoalbeny/