Edição nº 149
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Adjustable Microtonal Guitar

A empresa turca que resolve um problema de séculos com engenharia ajustável e abre o acesso à microtonalidade para qualquer guitarrista

Por: Gustavo Morais

A guitarra ocidental foi construída sobre um compromisso. O sistema de doze tons igualmente temperados organiza a oitava em intervalos fixos — o que facilita a padronização industrial e a compatibilidade entre instrumentos, mas deixou de fora uma parcela enorme da música mundial. Sistemas microtonais, maqams da tradição turca e árabe, ragas indianas, escalas compostas por quartos e sextos de tom: tudo isso exige divisões que a escala cromática padrão simplesmente não comporta.

Para executar essas músicas na guitarra, as soluções históricas eram precárias — trastes removidos para criar instrumentos fretless, braços trocados entre peças e marcações improvisadas na escala. Cada alternativa implicava perda de precisão, limitação de repertório ou inviabilidade prática. O problema não era novo. Era apenas não resolvido.

A origem acadêmica da solução

A Adjustable Microtonal Guitar surge dentro de uma instituição de pesquisa. Em 2008, o guitarrista e pesquisador Tolgahan Çoğulu desenvolveu o conceito como projeto científico na Istanbul Technical University, no Dr. Erol Uçer Center for Advanced Studies in Music, sob orientação da professora Şehvar Beşiroğlu. O ponto de partida foram as guitarras de René Lacote e Walter Vogt, instrumentos históricos que já exploravam configurações alternativas de trastes. Çoğulu partiu dessas referências e as levou para um sistema viável e reproduzível.

Essa origem importa porque define a lógica do projeto desde o início: a Adjustable Microtonal Guitar não surge de uma demanda comercial, mas de uma pergunta técnica e musical legítima. O instrumento foi desenvolvido para funcionar, não para ser vendido.

O sistema e sua lógica construtiva

O núcleo da proposta é a escala ajustável. Em vez de trastes fixos cravados na madeira, o sistema utiliza canais individuais sob cada corda. Os trastes — denominados fretlets no catálogo da marca — deslizam nesses canais e podem ser reposicionados, inseridos ou removidos conforme a necessidade musical.

A matéria-prima da escala foi testada acusticamente antes de ser adotada. A espessura de 6 mm oferece estabilidade estrutural sem comprometer a resposta sonora. As linhas de referência gravadas na superfície seguem o sistema 72-TET, que divide a oitava em setenta e dois intervalos iguais — uma grade que cobre a maior parte dos sistemas microtonais em uso, incluindo quartos de tom, terços de tom e as divisões características dos maqams.

Os trastes de aço inoxidável estão disponíveis em dois perfis de altura e largura. Um conjunto padrão inclui quarenta peças extras em quatro tamanhos, trastes longos que atravessam três cordas simultaneamente e trastes rasantes, usados como marcadores visuais sem criar divisão física. A remoção e o reposicionamento são feitos com alicate de bico e lima de trastes desenvolvidos especificamente para o sistema.

A segunda versão e a estrutura comercial

Em 2021, Tolgahan Çoğulu e Süleyman Hakan Görener desenvolveram a segunda versão do instrumento e fundaram a Microtonal Guitar Music Technologies, sediada no ITU ARI Teknokent — o polo tecnológico da Istanbul Technical University, em Sarıyer, Istambul. A empresa formalizou o que era pesquisa e transformou o sistema em produto disponível no mercado internacional.

O catálogo atual cobre escalas, braços e guitarras completas. Os braços são construídos em roasted maple, com truss rod de ação dupla e locking tuners. A compatibilidade foi pensada para facilitar a adoção: os braços encaixam em corpos compatíveis com os padrões Stratocaster e Telecaster, permitindo converter um instrumento já existente sem precisar adquirir uma guitarra completa.

Para quem não tem luthier disponível localmente, a empresa oferece um caminho alternativo: é possível selecionar o instrumento em lojas online turcas, e a equipe realiza a compra, substitui a escala por meio de luthiers parceiros e entrega o instrumento já configurado.

O que o sistema permite na prática

A flexibilidade do sistema vai além da microtonalidade. O músico pode configurar o instrumento para uma escala específica antes de uma performance e reconfigurá-lo para outra em seguida — eliminando a necessidade de múltiplos instrumentos para repertórios que transitam entre tradições musicais distintas.

Os trastes longos, que cobrem três cordas de uma vez, permitem criar zonas fixas na escala sem abrir mão da mobilidade das demais posições. Essa configuração é útil para quem trabalha com um sistema microtonal específico por longos períodos e quer referências fixas sem perder a capacidade de ajuste.

A ausência de trastes em determinadas posições também é uma opção: os trastes rasantes marcam a superfície sem criar divisão física, funcionando como guias visuais para técnicas que dependem de deslizamento contínuo.

Competição e disseminação

A marca mantém uma competição internacional anual de guitarra microtonal, que chegou à décima edição em 2026. O evento funciona como plataforma de visibilidade para compositores e intérpretes que trabalham com microtonalidade e documenta o crescimento da prática ao longo dos anos.

Essa iniciativa revela uma postura diferente da maioria dos fabricantes de nicho: a empresa não apenas produz o instrumento, mas investe ativamente na formação do campo musical que ele serve. A competição gera repertório, atrai músicos e consolida a marca como referência dentro de um segmento que ainda está construindo sua própria tradição.

Por que isso importa agora?

A Adjustable Microtonal Guitar ocupa um espaço que poucos fabricantes se dispuseram a explorar com seriedade. A microtonalidade sempre existiu como campo teórico e como prática em músicas não ocidentais, mas raramente encontrou um instrumento que a tratasse como um problema de engenharia a ser resolvido de forma sistemática.

O que a empresa entrega não é apenas um produto — é uma infraestrutura. A escala ajustável, os trastes intercambiáveis, os braços compatíveis com instrumentos existentes: tudo compõe um sistema que pode ser adotado gradualmente, sem exigir ruptura com o que o músico já sabe e já possui.

Esse posicionamento remove a barreira de entrada para quem tem curiosidade pela microtonalidade mas não quer abandonar a familiaridade da guitarra ocidental. E oferece profundidade suficiente para quem já opera dentro de sistemas microtonais e precisa de precisão real. É uma solução construída a partir de uma pergunta musical genuína — e isso aparece na consistência do resultado.