Edição nº 150
Edição nº 150

Andy Ferreira

Do bullying na infância às gigs de country na Califórnia

Por: Guilherme Montanari

Poucos guitarristas brasileiros conseguem circular com naturalidade entre o rock, o metal, o country, o worship, gigs corporativas, produção de conteúdo e discussões técnicas sobre timbre sem soar deslocados em nenhum desses ambientes. Andy Ferreira é um desses casos raros. Hoje radicado na Califórnia, mas a caminho de voltar a viver no Brasil, o músico construiu uma trajetória marcada pela obsessão pelo instrumento, pelo estudo intenso e por uma capacidade quase camaleônica de adaptação musical.

Nesta entrevista, Andy revisita desde a infância marcada pelo bullying e pela sensação de não pertencimento até o momento em que ouviu pela primeira vez o álbum Appetite for Destruction, do Guns, experiência que redefiniu completamente sua relação com a guitarra. Ele também fala sobre a decisão de abandonar a faculdade de Biologia para viver exclusivamente de música, os anos de prática obsessiva estudando nomes como Paul Gilbert, Richie Kotzen e John Petrucci, além da mudança para os Estados Unidos e os aprendizados dentro do Musicians Institute.

Entre histórias de gigs tiradas em poucos dias, reflexões sobre a cultura musical brasileira, bastidores do canal Tone Busters e críticas à polarização entre analógico e digital, Andy entrega uma conversa franca sobre música, carreira, estudo e sobrevivência artística. Tudo isso com a mesma filosofia que resume sua trajetória: não existe impossível, existe preparo.


Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no Spotify ou no YouTube.

Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Andy Ferreira.


Você consegue funcionar bem em praticamente qualquer situação — rock, metal, country, worship, gig corporativa. Você nasceu assim ou foi questão de sobrevivência?

Um pouco de tudo. Ironicamente, ou não, eu cursei faculdade de Biologia antes de me tornar músico em tempo integral. Então falar de adaptação é meio clichê para quem estudou muito Darwin. Mas quando você decide ir para uma carreira tão errática quanto a música, não estar aberto à possibilidade de se adaptar é basicamente dar tiro no pé e pedir para perecer. 

Eu sempre fui um cara de fácil trato, me dei bem na maior parte dos ambientes. Isso foi uma transição natural na hora de colocar minha personalidade na frente da câmera. Somado ao fato de que a biologia me tornou professor — isso me ajudou muito no aspecto didático. 

E além de tudo eu me tornei músico profissional. Então, para encarar o que vier pela frente de cabeça erguida, sendo brasileiro e tendo sido forçado a conviver com tantos estilos musicais ao longo da minha vida, eu costumo brincar aqui na Califórnia que tudo que eu preciso para encarar qualquer gig são duas semanas. Me dá duas semanas de tempo de preparo que eu parto para dentro. Não existe o impossível — o que existe é tempo de preparo, a mentalidade correta e, obviamente, dedicação e disciplina.

Como surgiu o seu fascínio pela guitarra?

Eu cresci dois anos adiantado na escola, então entrei na faculdade com 16 anos. Para um moleque de 10 anos versus um de 8, a diferença de tamanho é considerável. Sem querer entrar muito na parte triste, eu precisava de alguma coisa para me destacar, porque não era fácil. Além de tudo, eu era o melhor aluno da turma. Então, bullying comeu solto. Não foi muito fácil ser eu durante a minha infância na escola. E pra piorar, eu venho de uma família de dançarinas — minha mãe e minha tia são dançarinas. Então eu comecei dançando antes de ir para a parte instrumental. Eu andava com alvo nas costas: moleque menor, mais fraco, melhor aluno da turma, que dançava. O jovem Andy não foi muito feliz nesse aspecto.

Aí, ficando pré-adolescente, tendo interesse por uma menininha aqui e outra ali, eu não conseguia chamar a atenção de ninguém. Num domingo, na casa da minha avó, vendo televisão, entrou no palco de algum programa de auditório o Sandy e Junior. E ele entrou com uma guitarra. Ele era muito mais legal do que eu. Eu bati o olho e falei: “esse maluco é legal.” E pra botar a cereja no bolo, as meninas estavam gritando o nome dele — ninguém gritava o nome da Sandy. Aí eu falei: “pronto, tá aqui a minha saída. Vou tocar guitarra pra ficar legal igual ao Junior.” Acabou que não adiantou nada, as meninas continuaram não olhando pra mim. Mas nesse tempo eu desenvolvi uma obsessão com o instrumento que exala pelos meus poros, e inevitavelmente eu me tornei músico profissional e não me vejo fazendo outra coisa.

Quando passou de hobby para estudo sério?

Eu ia à escola todo dia e tinha um colega cujo pai morava nos Estados Unidos e trazia coisas que não tinha disponíveis para nós no Brasil. Ele me avisou que o pai ia trazer um Discman com uns CDs especiais. No dia seguinte, entrei no ônibus escolar e ele me disse: “cala a boca, senta aqui e ouve isso.” E colocou o fone na minha cabeça. Era o Appetite for Destruction, do Guns N’ Roses. Ali eu ouvi duas notas e pensei: “eu quero fazer isso da minha vida.” Porque até então, a paixão pela guitarra era uma questão social — eu precisava de algo para me destacar.

Aquilo foi completamente disruptivo para mim. Cheguei em casa e falei: “mãe, eu quero que você compre pra mim qualquer disco de rock pesado, hard rock, heavy metal, que eu quero ouvir essas paradas.” Eu já tinha a certeza na cabeça de que aquilo era o que eu ia fazer para o resto da minha vida. Para mim, esse momento foi a primeira nota que eu ouvi do Appetite for Destruction.

Quando você tomou a decisão de largar a Biologia e seguir a música em tempo integral?

Eu cursei quatro anos de Biologia — na teoria. Eu entrei na biologia como plano B: “tira um diploma qualquer, que se a música não der certo, você tem diploma.” Entrei com 16 anos na faculdade da UFRJ. O colégio pra mim, especialmente no ensino médio, foi algo relativamente fácil, então chegava da escola em casa, ligava a guitarra e tocava. Quando minha mãe chegava do trabalho, pegava um livro e fingia que tinha estudado a tarde toda.

Chegou um momento em que o sistema da UFRJ me chutou de várias matérias — eu tinha pego nove, me deixaram com duas. Acha que eu fui reclamar? Não. Fiz essas duas com nota máxima e o restante do tempo fiquei em casa tocando guitarra. Nesse período eu pratiquei entre 6 e 8 horas por dia, todo dia, sem exceção. Peguei as videoaulas do Paul Gilbert todas, as do Kotzen, do Malmsteen, o Rock Discipline, do Petrucci — eu devorei aquilo. Esse foi o ano de longe que eu mais evoluí na guitarra tecnicamente. Aí começou a tocar o telefone com gente me oferecendo pra dar aula, e eu fui no escritório da UFRJ, e ao invés de trancar a matrícula, eu cancelei.

A responsável pelo escritório ainda falou: “Anderson, não faça isso, tranca, você pode se arrepender.” Eu falei pra ela: “eu não vou me arrepender. Eu sei muito bem o que eu quero.” E assim eu fiz. Cancelei minha matrícula e segui correndo atrás de aluno pra dar aula. Para mim esse momento foi com 20 anos. Não foi uma escolha nem um pouco difícil.

O que te motivou a se mudar para os Estados Unidos?

Mudar para os Estados Unidos foi de longe a aventura mais louca da minha vida. Quando eu vim, não tinha pretensão de ficar nem de não ficar — a pretensão era vir estudar e ver no que ia dar.

Eu não queria fazer uma faculdade de MPB, eu não queria uma faculdade de música em geral — eu queria uma faculdade voltada para guitarra elétrica. Aí minha esposa me perguntou: “estuda fora?” E ela já tinha pesquisado faculdades de música nos EUA. Dois grandes nomes surgiram: a Berklee, em Boston, e o MI [Musicians Institute] aqui na Califórnia. Ela me perguntou se eu conhecia o MI — e eu comecei a cuspir nomes: Scott Henderson estudou lá, Paul Gilbert estudou lá. Ela falou: “por que a gente não elabora a respeito?” A sementinha foi plantada.

Eu entrei no site, fiz a aplicação, fui aprovado. Originalmente eram 18 meses de curso. Tirei um trimestre de férias, os 18 meses viraram 21. Me formei durante a pandemia, então fiquei trancafiado dentro de casa durante quase um ano. E aí a gente foi ficando, foi ficando e ficamos. Estamos aqui até hoje.

Quando chegou ao Musicians Institute [MI], você sentiu que precisava subir o nível?

Quando eu cheguei, sim, foi esse turbilhão de emoções — estava conhecendo gente da Austrália, da Inglaterra, da Suécia, muito americano, muito asiático, muito brasileiro, chilenos, mexicanos. O MI era essa panela de pressão. Mas a principal coisa que eu descobri — que eu já sabia, mas que se sedimentou muito — é que a nossa cultura é a mais incrível do mundo. E eu falo isso sem nenhuma modéstia. De todas as nacionalidades que eu conheci lá, os brasileiros eram, de longe, os que aprendiam tudo mais rápido.

Os caras ficavam: “como você fez isso? De onde veio isso?” E não estou falando só de música brasileira — às vezes era uma frase simples que você roubou subconscientemente de uma canção da Daniela Mercury. Para você isso é natural; para eles, não é. Mas se você for analisar elemento a elemento, a gente está muito bem na fita. A quantidade de substituições que você pega numa canção do Djavan, a condução de voz que você vê no Jobim — sorry, mas não dá para comparar. Se você estuda a harmonia brasileira a fundo, qualquer standard de jazz vai parecer uma caminhada no parque.

Como foi parar tocando country na Califórnia?

Pintou uma gig. O dinheiro não era ruim. Eu tinha três dias, quatro no máximo, para tirar 40 músicas — que na verdade viraram 50. Das 50, eu só conhecia três. Meu irmão, a anotação para que te quero. Eu risquei o papel, canetei o show inteiro, fiz o show inteiro lendo. O cara me achou half good [algo como “ele segura a onda”] — foi suficiente para me chamar para o próximo, para o próximo e assim sucessivamente. Nessa brincadeira eu devo ter feito uns 50, 60 shows de música country.

Ainda não me considero guitarrista de country, mas essa linguagem eu tenho no bolso. Devo ter umas 100 a 150 canções country debaixo do dedo. Se você ligar o rádio na rádio country aqui, eu toco os hits. E se não estiver debaixo do dedo, está no meu iPad onde eu escrevi tudo. Então, resumindo, como eu comecei a tocar country? Pintou uma gig, o dinheiro não era ruim e foi bunda na cadeira canetando as músicas. O resto é história.

Como surgiu o Tone Busters?

Definitivamente a ideia do conteúdo veio depois da paixão pelos timbres, que vem de muito tempo. Eu tinha uma escola de música no Rio em 2016, e me reaproximei de um velho amigo, o Léo Pacheco. Tinha o Thiago Zalinsky também, que era professor na escola. Os três começamos a falar no grupo de WhatsApp sobre guitarra o dia inteiro.

Aí o  Zalinsky postou o link de uma revista americana falando de um negócio que pra gente era trivial: “se você ligar o overdrive com volume alto, você satura mais o amp.” Uma coisa óbvia para quem tem 20 anos de guitarra nas costas. Aí eu falei: “pô, mas isso é óbvio pra gente porque a gente fala inglês. Pro brasileiro médio que não é bilíngue, essa parada não é trivial não, cara.” O grupo ficou em silêncio por alguns minutos. Pra mim foi a sementinha que foi plantada para o surgimento do Tone Busters.

Então surgiu: existe um universo do mundo da guitarra que é trivial para quem é bilíngue, mas que o brasileiro não tem acesso. Fizemos o primeiro vídeo falando sobre boosters, sem pretensão nenhuma. Esse primeiro vídeo, num canal com zero inscritos, fez mais views em uma semana do que o vídeo que eu postava no meu canal individual. Depois fizemos sobre delay — o vídeo bombou, bateu 40 mil views muito rápido. Foi aí que a gente começou a levar a sério. Então o Tone Busters surgiu desse lugar de três amigos fissurados em timbre e equipamento, chegando à conclusão de que o que a gente sabia era porque a gente era bilíngue.

Você acha que falta para o guitarrista de hoje o hábito de girar o botão e entender cada pedal individualmente?

Só falta. O que acontece é que, como tudo que evolui, muda e melhora, tem lado bom e lado ruim. A tecnologia trouxe a facilidade de hoje qualquer jovem com um kit de guitarra conseguir tirar um som infinitamente melhor do que nós tirávamos na nossa época. A acessibilidade está muito na cara. Mas um dos grandes problemas da tecnologia é que ela tornou difícil fazer coisas fáceis — porque está tudo fácil demais.

Eu já vi gente com seis pedais de drive no board, dos quais três eram Tube Screamers de diferentes marcas, sem se tocar de que ele pode ter uma infinidade de variações do Tube Screamer tendo apenas um pedal, mexendo no volume da guitarra. Tornou o fácil algo difícil. Às vezes o cara compra um preset, bota na pedaleira, começa a tocar e pensa: “esse som está um pouco agudo demais pra mim — vou comprar outro preset que tem menos agudo.” Sem se tocar que está no nome: preset. Previamente configurado. Não quer dizer que aquilo está escrito em pedra. Você pode mexer naquilo. E às vezes é só um tapinha de 1dB no agudo. Essas habilidades estão em falta.

Sobre a guerra digital x analógico nas redes — a sua paciência acabou?

A polarização está mais insuportável do que nunca, e é particularmente estúpido você polarizar a arte — porque a arte não tem certo e errado. Muitos dos sons mais icônicos que existem vieram de erros técnicos. O som de baixo do Rush: o Geddy Lee plugou no input errado — botou direto no return do amp — e o som saiu maravilhoso. O Fender Bassman foi feito para baixo, não para guitarra. As bandas começaram a tocar cada vez mais alto, o amp começou a distorcer, o baixista não queria mais — o guitarrista falou: “é de graça? Eu quero.” E o resto é história.

Então, fica bando de gente na internet discutindo o sexo dos anjos, que certamente não sabe nem afinar a guitarra de ouvido, mas está discutindo porque a parafuseta do pedal tem aquele chip. Nem meu cachorro ouve esse som que você está dizendo que ouve. E o melhor de tudo é que não faltam testes cegos para mostrar que essa galera está vivendo de placebo. Sim — a paciência acabou. Agora, vejo idiotice, eu tô lidando no sarcasmo.

Como surgiu a parceria com a Fender?

Surgiu de um sonho de ser artista da maior marca de guitarras do planeta. Todo mundo, em algum momento, sonhou ter uma Fender. O que aconteceu foi que eu vi ali uma oportunidade. A Fender vende muita guitarra no Brasil, mas não vale a pena ter artista no Brasil porque toda vez que mandam uma guitarra, têm toda aquela questão aduaneira que encarece o instrumento — imposto de importação, ICMS, aquela lista interminável de siglas que ninguém gosta de citar.

Eu falei com os caras assim: “brother, eu tô aqui. Manda as guitarras pra mim, eu faço os vídeos, e vocês vão ver o resultado nas importadoras comprando mais Fender porque eu estou fazendo o conteúdo daqui.” Eles gostaram da ideia. Conversei com a Pride Music, apresentei a ideia para eles também, eles gostaram, a ponte foi feita, o resto é história.

Fica uma dica gratuita: enquanto você não pensar com a cabeça do empresário, do dono da marca, você está fadado a ser um pedinte digital. Você tem que pensar o que pode trazer para a equação que vai beneficiar a marca. A hora que você pensa assim, a coisa muda de figura. Com a Duncan foi assim, com a Positive Grid foi assim, com a Fender foi assim.

Você está voltando ao Brasil. O que te motivou?

No presente momento estou num processo de mudança de volta para o Brasil para o fim do mês de junho. A verdade é que tem muita coisa no Brasil que está em hiato justamente porque minha vida de lá fica prejudicada por eu estar aqui o tempo todo. A quantidade de coisas que eu perdi na minha carreira por não estar no Brasil é tão grande quanto a quantidade de coisas que ganhei por estar aqui. Então, depois de quase 8 anos de Estados Unidos, vou passar uma temporada longa no Brasil. E quem me acompanha só pela telinha do celular vai ter oportunidade em um futuro muito próximo de evento presencial.