
Guitarrista, educador e pesquisador de timbres, Eric Paulussi construiu sua trajetória longe das fórmulas prontas. Antes de se tornar referência em capturas, presets e regulagens para guitarra, passou anos encarando a rotina intensa das bandas de baile, aprendendo na prática como fazer o som funcionar em qualquer situação — dos palcos improvisados aos setups mais sofisticados.
Criador do Caminho do Timbre e um dos nomes por trás do Concepção Guitarra, Eric transformou a obsessão por entender equipamentos, frequências e dinâmica em uma filosofia direta: timbre não nasce de mágica, nasce de percepção. Em vez de vender atalhos, prefere ensinar guitarristas a ouvirem melhor, compreenderem o próprio som e fazerem mais com menos.
Nesta conversa, ele fala sobre formação musical, pedaleiras clássicas, IRs, captura de amplificadores, shows ao vivo, a influência de nomes como Steve Lukather e a importância de construir ambientes mais humanos dentro da música. Entre histórias de estrada, lições de humildade e discussões técnicas, Eric mostra por que se tornou uma das vozes mais respeitadas do universo do timbre no Brasil.
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Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Eric Paulussi.
Antes de tudo virar profissão, como foi a transformação da sua relação com a guitarra — especialmente no que diz respeito ao timbre?
Eu era o cara que só se dava mal com equipamento, porque trocava de pedaleira toda hora. Comecei a tocar na noite muito cedo — minha mãe cantava, minha avó cantava, e minha primeira função musical foi também cantar. Mas o violão que tinha na casa da minha mãe me chamou, e daí pra frente nunca mais parei de ter contato com um instrumento de cordas.
Comecei tocando em bandas de pop rock e baile com uns 15, 16 anos — escola das melhores, tanto pelo que você aprende quanto pelas adversidades. Eu sempre adorei mexer com pedaleiras, sempre quis entender o que estava na moda. E chegava num ponto em que empacava em alguma configuração, não conseguia resolver, e trocava de equipamento. Aí ia assistir o show de algum amigo — às vezes aquele mesmo amigo para quem tinha vendido minha pedaleira velha — e ele estava tirando um som incrível com ela, enquanto eu com a nova não conseguia nada. Foi aí que comecei a entender: algo de errado não estava certo. Precisava resolver isso. Sou muito curioso por natureza, e muito inconformado com o ‘amém, é assim e pronto’. Fui colando nos técnicos de som para entender que frequências eles esperavam da guitarra, fui buscar material em inglês na internet, li manual de tudo que comprei.
Brinco que sou do tipo “Globo Repórter: o que é, para onde vai, do que se alimenta, onde vive”. Com o tempo, vários amigos começaram a me pedir ajuda com as pedaleiras deles, e aquilo foi crescendo até virar o que mais eu fazia.
Você diz que ‘timbre não é fórmula, é processo’. O que isso significa na prática para quem está começando?
Primeiro, o guitarrista precisa ter consciência de que ele é a peça principal. Tudo que vem depois dele é ferramenta — e isso vale para qualquer nível de equipamento, do mais simples ao mais caro.
Segundo, o guitarrista precisa de uma referência. Para quem não sabe onde quer chegar, qualquer direção serve. Se você não tem um norte, como vai regular seu timbre?
Uma das coisas que mais me ajudou foi ir assistir aos caras bons tocarem. Ver o show ao vivo, de preferência na frente, porque no palco você percebe detalhes que o disco não entrega. Fui a workshops em São Paulo, assisti ao Edu, ao Faísca, ao Wander Taffo — chegava com aquela memória na cabeça e tentava chegar naquele som em casa.
Além disso, descobri cedo que o falante é responsável pelo maior percentual do seu timbre. Você pode ter o melhor pedal e o melhor amp do mundo, mas se ligar num falante ruim, acabou o som. O falante é um filtro — ele deixa passar as frequências que são interessantes para a guitarra e elimina o que não serve.
Entendendo isso, você começa a resolver o som de forma muito mais eficiente.
Como você trabalhava o timbre antes de IR e simuladores de caixa? Como evitava aquele som ‘abelhudo’ no clean ou a distorção agressiva demais?
Uma das minhas pedaleiras favoritas até hoje é a Boss GT8. Economizei uns cinco bailes para comprá-la — literalmente calculava os equipamentos em bailes naquela época. Ela rodou comigo por muitos anos, e eu a conheço de cor: sei as configurações de cabeça, sei onde está tudo que preciso, é só ligar e ir ao show.
O que eu fazia era usar o Output Select dela no modo Line/Fone com a simulação de caixa interna ativada. E uma coisa que aprendi logo: eu não colocava a guitarra alta no meu retorno ou no fone — tinha só um pouquinho de guitarra em cada lugar. Criava espacialidade sem incomodar ninguém e sem vazar no microfone. Mesmo tocando com amplificador, mantinha o volume baixo, porque o som estava no retorno e, quando usava, no fone também. O grande lance era — e continua sendo — equalizar com a orelha. O melhor IR do mundo é o ouvido. Você ouve, identifica o que está sobrando ou faltando, e vai ajustando sem depender de uma fórmula externa.
E lembrando que muita gente acredita que o IR resolve tudo. Qual é a limitação dessa visão?
O IR é uma simulação de caixa — apenas isso. Ele não é o Superman que vai salvar um som que está ruim na fonte. Se o guitarrista não sabe regular o pré, não sabe trabalhar os pedais com uma simulação básica de caixa, acrescentar um IR não vai mudar nada. É igual à captura: ela possibilita que você tenha acesso a um amplificador bem regulado, mas a guitarra que você usa, a palheta, o ângulo de ataque, o calibre da corda, o captador — tudo isso interage e vai gerar diferenças.
Costumo dizer que não existe timbre pronto. O que existe é você estar pronto para explorar as ferramentas. Uma captura, um preset, um IR — são ferramentas. Sozinhos não significam nada, da mesma forma que um captador não tem som definido antes de ser colocado em uma guitarra específica, nas mãos de um músico específico, com a sua forma de tocar.
Você costuma dizer que assistir shows ao vivo é essencial para desenvolver o ouvido. Por quê?
Ao vivo você tem menos ‘maquiagem’. Você consegue ouvir o que realmente está acontecendo — como o cara coloca o compressor, como usa o drive para empurrar o amp, como gerencia o volume. No disco, há toda uma produção envolvida; no show, está ali, direto. O som do Nuno Bettencourt ao vivo, por exemplo, soa bem agulhado, com bastante presença, quando você ouve isolado. Mas dentro da banda, está exatamente onde precisa estar. Isso ensina muito sobre como pensar o seu timbre no contexto de um grupo.
Além disso, o show de um guitarrista da sua cidade também conta. Pague o couvert com gosto, sente na frente, observe. Quem me ensinou muito foi o Marquinho, da banda Rock Express. Eu ia sozinho no show, ficava da primeira à última música, quieto, só observando. Foi ele quem me viciou no Marshall JMP-1, que uso até hoje. Ir assistir os caras bons é o atalho que muita gente ignora.
Como surgiu o Caminho do Timbre, e o que o projeto representa para você hoje?
O Caminho do Timbre nasceu na pandemia. Eu tocava de segunda a segunda — era o meu modo de vida — e de repente as datas acabaram. Tinha acabado de comprar um apartamento na planta e precisava pagar. Foi quando a ideia surgiu, junto com meu sócio Al, que me pilhava há tempo para lançar um curso. Juntei meu sócio Bruno Kanachiro, que é fotógrafo e filmmaker, e decidi postar conteúdo todo dia.
A pandemia me ensinou que eu não podia depender só de tocar ao vivo — precisava ter outras coisas acontecendo em paralelo. Hoje o Caminho do Timbre tem milhares de alunos e inclui cursos, consultorias, pacotes de preset para todas as pedaleiras do mercado, capturas de Tonex e mentorias de compra. A filosofia é sempre a mesma: mostrar ao guitarrista como usar qualquer equipamento, não ditar o que ele deve usar. É como uma autoescola — não importa se você tem Honda, Chevrolet ou Fiat. Eu vou te ensinar a dirigir.
O Concepção Guitarra acabou se tornando muito mais do que um curso ou workshop. Como nasceu essa ideia?
O Concepção Guitarra nasceu de uma coisa que eu sempre gostei de fazer. Antes de trabalhar só com música, eu trabalhei em banco. Eu fazia gestão de pessoas, trabalhava com liderança e sempre gostei muito de criar ambientes e conectar pessoas.
Quando comecei a trabalhar mais forte com guitarra, percebi que existia uma carência muito grande de ambientes em que as pessoas realmente pudessem conviver, trocar experiência e aprender de forma próxima.
Sempre gostei muito dessa ideia de reunir pessoas boas, colocar músicos incríveis no mesmo ambiente e criar experiências verdadeiras para quem participa. A intenção nunca foi fazer só um workshop tradicional. Eu queria uma experiência mais humana, mais próxima e mais inspiradora para quem estivesse ali.
Um dos pontos mais comentados do Concepção Guitarra é justamente o ambiente criado nos eventos. O que torna essa experiência diferente?
A galera vem para o Concepção Guitarra e todo mundo vibra junto. Você vê o Edu e o Fulvio dando aula juntos, dando risada, zoando um ao outro e tocando absurdamente bem. Não tem espaço para ego.
É um evento em que você almoça com os caras, troca ideia, convive e vê como os músicos realmente são fora do palco também. Isso cria uma experiência muito diferente. As pessoas se sentem parte daquilo.
Hoje o projeto está se ampliando bastante. Tem novidades do Concepção Guitarra, eventos presenciais, novas imersões, parceria com a School of Rock de Campinas, aplicativo novo chegando e muita coisa sendo construída.
Se pudesse dividir o palco com dois músicos, quem seriam?
O Steve Lukather, sem dúvida. O que o Lukather faz no Toto é uma aula constante. O som wet/dry/wet, o jeito como ele usa o volume da guitarra, clean com compressor, drive empurrando… tudo aquilo me pega muito. Para mim, o DVD de 35 anos do Toto tem um dos melhores timbres de guitarra que já ouvi na vida.
O outro cara seria o Kiko, do Roupa Nova. Acho que seria um sonho dividir o palco com ele. O Kiko é o maior exemplo de ser humano que eu já vi na minha vida.
Eu lembro de uma vez em que fui tocar com uma banda que abriu o show deles. Eu era molecão, devia ter uns 19 ou 20 anos. Na época, minha GT-8 tinha queimado no dia anterior e eu tinha emprestado uma Pod X3 de um amigo. O Kiko estava usando uma Pod XT com potência e caixa.
Cara, ele subiu no palco comigo, sentou no chão e ficou mexendo no equipamento comigo. Resumindo: ficou uns 40 minutos, quase uma hora ali, batendo papo sobre som, equipamento e guitarra. Ele não tinha a menor obrigação de fazer aquilo. Nenhuma.
Era um cara com Grammy, vários discos de platina, uma carreira gigantesca… e, mesmo assim, me tratou com uma humildade fora do comum. Naquele dia, ganhei a maior lição de ser humano da minha vida.