
Do Project46 ao Korzus, passando por uma inesperada turnê europeia ao lado do Sepultura, Jean Patton construiu uma trajetória que vai muito além da guitarra. Guitarrista, produtor musical, professor, empreendedor e apaixonado pela música pesada desde a infância, ele transformou a obsessão por riffs e pela guitarra base em uma identidade própria dentro do metal nacional.
Nesta entrevista, Jean relembra os primeiros contatos com o rock, fala sobre a importância da disciplina na construção de uma carreira, detalha seu sistema de palco atual, revela os bastidores do convite para tocar com o Sepultura e compartilha sua visão sobre composição, produção musical e o futuro da música pesada.
Você pode ouvir o episódio no player abaixo ou assisti-lo no Spotify ou no YouTube.
Confira em seguida os principais momentos do bate-papo com o guitarrista Jean Patton.
Antes de tudo que você construiu existir, como começou a guitarra e essa paixão pelo metal na sua vida?
A paixão pelo rock e mais para frente pelo metal foi por influência do meu pai. Meu pai sempre foi roqueiro, ele tinha uma banda com os irmãos, tinha uma coleção extensa de discos de vinil em casa. Ele colocava muitas coisas: rock and roll, heavy metal, progressivo, Zeppelin… E aí eu comecei a pegar gosto mais por aí, pelo som.
Minha mãe falava que às vezes me perdia num evento, numa festa, num shopping, e eu estava na frente de alguma bandinha que estava tocando, ou de alguma caixa de som. Eu já ia automaticamente sendo levado para essa parada. Mais para frente, por causa de amigos de escola, comecei a ir mais para o metal. Ouvi Iron Maiden — me encantou muito. Depois fui para o Metallica, Sepultura, e aí já deslanchou. Isso com uns sete anos.
Com uns nove anos, tinha um amigo de bairro que estava começando a fazer aula de guitarra. Ele me chamou para conhecer a escola de música — a Beg, que existe até hoje. Fui e gostei muito do ambiente, cheio de músicos, cheio de pessoas que gostavam das mesmas coisas. A partir daí só conseguia pensar nisso.
Qual foi a banda que te fez pensar “é isso que eu quero fazer da minha vida”?
Acho que foram duas. O Kiss foi a banda que me despertou — a imagem, o som. Mas quando eu falei “quero fazer isso”, acho que foi a partir da época que comecei a ouvir muito Pantera e Sepultura.
Minha mãe me deu um DVD do Sepultura — era o Under Siege, uma coletânea com show de Barcelona de 92, da turnê do Chaos A.D.. Aquilo me quebrou a cabeça. E tinha uma banda brasileira ainda — isso foi muito forte.
Mas quando entrei na vibe do Pantera, foi aí que falei: é isso que eu quero fazer, esse é o meu sonho, é conseguir chegar nesse peso, nessa agressividade do som do Pantera. Foi minha influência que mais ditou tudo até hoje. Se fossem dois responsáveis: Pantera e Sepultura. Mas também, quando vi o Ride the Lightning, do Metallica — aquilo também me deixou meio na lona.
Você sempre foi mais atraído pelo riff e pela base do que pelo solo. Por que essa escolha?
O lance do riff e do peso das partes pesadas — principalmente os riffs meio do mal, que tem muito do Slayer também — me arrepiava mais. Quando chegavam essas partes, eu ficava tipo: isso é muito foda!
Eu gostava mais da parte grave, de riff mesmo, que é uma parada cantada, uma melodia que pega. E sentia que era mais a interação da banda. Às vezes o riff e a voz entravam juntos — uma coisa se conectava na outra. Então eu acabei prestando mais atenção nessas partes.
Ia tirar som de uma banda e raramente tirava solo. Se eu tivesse que tocar com alguma banda e precisasse, eu fazia o solo. Mas raramente — só tirava os riffs principais, da intro, do refrão, do verso.
Muita gente subestima a guitarra base. O que é preciso para fazê-la soar de verdade?
A guitarra base tem esse nome por motivo: ela é a base de tudo, a fundação da música. Uma das primeiras coisas que faz alguém tocar bem base é dominar a parte rítmica. Ela não está como destaque, está servindo a música.
A guitarra base bem feita começa pelo tempo. Você tem que estar muito no tempo, alinhado com a cozinha da banda — bateria e baixo. É melhor você tocar no tempo e errar nota do que o contrário. Porque fora do tempo você desencadeia uma série de outros problemas — uma música pesada só é pesada quando bate forte, tudo junto.
Eu vejo muita gente com problemas com guitarra base por causa do tempo. Mas a pessoa não acha que é pelo tempo — acha que é o pedal, o captador, a corda velha. Não percebe que está fora do tempo. Não tem equipamento que salve isso. É só praticar muito. Prática com banda é sempre o melhor. Mas com metrônomo também, e gravação — se você se gravar em casa, percebe onde está sujando nota, onde está sobrando nota.
Além disso, uma guitarra base boa não fica suja: você tem que entender todas as notas. Em heavy metal tem muita nota, muita palhetada. Quanto mais limpo for e no tempo, já está à frente de 90%.
Você falou muito em paciência para desenvolver técnica. Como é esse processo na prática?
Tem coisa que vai sair no primeiro dia, tem coisa que vai demorar semanas, talvez meses. Mas tem que ter paciência. Se você quer chegar num nível de excelência e critério, você tem que saber que é pouquinho por dia.
Se não está saindo, diminui a velocidade, faz, se grava, vê os vídeos, ouve o que você gravou. Aí você compara e fala: olha que evolução. Ela acontece. É só ter um pouco de paciência.
O problema é que hoje é tudo para ontem. A rede social fez a gente ficar viciado em conteúdo curto — a gente quer o resultado na hora. E a guitarra é o único momento que não dá para fazer duas coisas ao mesmo tempo: ou você toca, ou você faz outra coisa. Eu paro a minha vida, deixo o celular virado para baixo, esqueço da vida. Por isso que eu gosto tanto também. Não é terapia, mas é terapêutico. E quando eu vou ver, já passou horas.
Como era a mentalidade de vocês no começo do Project46? O que fazia vocês se destacarem?
Sempre foi o lance de: tem que fazer o melhor que dá. E às vezes fazer até o que não dá. Mas tem que fazer, porque tem que se destacar, mostrar uma qualidade melhor, o melhor que a gente pode oferecer.
Tem banda que não se esforça tanto quanto poderia. Quem quer mesmo dá um jeito. Uma banda que ensaia uma vez por mês não vai tocar com a mesma qualidade de uma que ensaia três vezes por semana. Você tem que gostar muito disso. Quando você gosta muito, você arranja tempo.
Dessa mentalidade do Project até hoje eu tenho isso. E no Korzus é ainda mais. É trabalho — você tem que gostar muito, senão rapidamente vai desistir, porque é difícil mesmo. Só que se você fizer tudo com qualidade, o resultado vem. Quem trabalha consistentemente, com zelo pelo que está fazendo, tem resultado. Não existe almoço grátis. Para uma banda de metal é tudo isso vezes dez.
Você falou que banda é igual a relacionamento. Como fazer uma banda funcionar quando as pessoas pensam diferente?
É difícil você achar que numa banda de cinco pessoas os cinco vão pensar exatamente igual. Se você entender que as pessoas são diferentes, vão pensar diferente e têm tempos diferentes, já começa ajudando muito. Daí você começa a pensar: como dar para tirar o melhor de cada um?
Eu acho que tudo começa com conversa. Banda é que nem relacionamento romântico — você precisa de conversa para valer. Todo mundo tem que saber o que está acontecendo, o que você está pensando, para onde está indo — para ver se os caras também entram na sua vibe e se vocês estão alinhados. No final das contas, todo mundo tem que estar alinhado para o mesmo objetivo.
O problema é quando um quer ter banda para pegar a galera, o outro é apaixonado e estuda teoria todo dia, o outro só quer ganhar dinheiro, o outro só quer ser famoso. Os objetivos sendo completamente diferentes, não tem como. Se todo mundo quiser ser o Beethoven, fica mais fácil — porque todo mundo aponta para isso.
Como foi a evolução do seu setup — do analógico para o digital? O que te fez mudar?
A premissa básica sempre foi pensar em soluções para a banda poder tocar mais. O objetivo era facilitar a logística — chegar com menos coisa, carregar menos peso, ser mais enxuto.
A gente foi tocar uma vez com o Amir e foi a primeira vez que eu vi de perto os caras usando Fractal. Cada um chegava com um rackzinho de duas, três unidades e tirava um som absurdo. Era uma malinha pra carregar no avião. Foi quando eu decidi mudar do analógico para o digital — mais pela facilidade de levar as coisas e resolver o problema da logística.
Chegou num momento que tinha shows legais, fora, longe, avião — mas não o suficiente para levar cabeçote no avião ou exigir um amplificador bacana de locadora. Então falamos: vamos mudar tudo para digital. Fui do Fractal para o Kemper, do Kemper para o Quad Cortex. Depois, na última tour com o Project, fiz híbrido — e é basicamente o que faço hoje no Korzus.
E qual é o setup atual no Korzus — como tudo está conectado e como o MIDI funciona ao vivo?
Hoje o setup é um amplificador da Driftwood — o Purple Nightmare, versão pedal, valvulado — ligado a uma caixa 4×12. É a mesma coisa que o amplificador de 100 watts, só que na versão pequena. Nos shows maiores usamos quatro caixas de cada lado, nos menores duas de cada lado — tudo ligado. Se você for no show do Korzus, pode ter certeza que vai ter som de palco.
O Quad Cortex fica no loop do Driftwood, controla tudo via MIDI. Usamos oito presets por cena. Mando sinal MIDI do meu Quad para o da Jéssica, então todas as trocas de efeitos são automáticas e sincronizadas — não pisamos nada durante o show. O Quad fica no chão por causa do roadie e para qualquer eventualidade, mas nem há necessidade.
Dentro do Quad, eu controlo tudo antes e depois do Driftwood: Tube Screamer, Noise Gate, compressor, equalizador, chorus, flanger, delay, reverb, doubler. Para o PA vai só linha, com IRs que eu mesmo capturei no estúdio — disponíveis no Patones.shop. São duas caixas 4×12, uma Mesa Oversized e uma Marshall 1960DM, com combinações de 57 e 421. Ao vivo uso uma combinação de dois IRs que demorei um tempo para achar, mas hoje sempre funciona.
Conta a história de quando seu telefone tocou com o convite para a turnê do Sepultura. Como foi aquele momento?
Essa história foi surreal — eu não imaginava nunca que isso poderia acontecer, ainda mais com uma banda que eu amo tanto. Eu estava jantando com minha mulher num restaurante de shopping quando me ligou o Dante Luca, que trabalhou por muitos anos comigo no Project e é o guitar tech do Andrés.
Ele me disse para ir a um lugar sem barulho, que precisava falar algo sério. Quando explicou — que os caras iam fazer a tour e eu toparia fazer — eu falei: lógico, com certeza. Nem sabia o que eu tinha que fazer, só disse sim. Qualquer coisa que o Sepultura me pedisse, eu ia fazer sem perguntar por quê. “Só me fala que horas eu tenho que estar, aonde e tocar o quê.”
Ele me ligou às dez da noite. Três da tarde do dia seguinte eu estava lá. Muita gente não acredita quando eu conto isso. Mas é verdade. A sorte que tive foi conhecer muitas músicas: eu tive cover de Sepultura quando era moleque, então tinha memória muscular. No primeiro ensaio, sem tempo para preparar direito, consegui passar dez músicas com eles.
Como foi a noite entre o convite e o embarque? O que você fez naquelas horas?
Eu já estava tremendo, agitado. Voltei para a mesa e falei para ela: pede a conta agora. Tinha acabado de chegar minha sobremesa — dei uma colherada e saí com a boca cheia enquanto ela pedia a conta. No caminho fui explicando: o Dante me ligou, perguntou se eu faria a turnê do Sepultura, um mês na Europa. Ela ficou muito feliz. Eu fiquei feliz também, mas muito agitado.
Cheguei em casa e fiquei até as três da manhã afinando as guitarras — minhas guitarras não estavam nessa afinação — e passando músicas. Pensava que ia viajar na segunda-feira, então ainda tinha tempo. Só que de manhã soube que tinha que estar no aeroporto às três da tarde.
Nesse meio tempo não tinha guitarra suficiente, liguei para um amigo, precisei de guitarra com Floyd, os caras mandaram de Uber. Minha mulher me ajudando na mala. Fui avisando meus pais: “estou indo para a Alemanha, do nada.” No avião baixei vídeos ao vivo para saber as coisas que eles faziam diferente das músicas originais — convenções, partes de live, arranjos diferentes. Minha maior preocupação eram as músicas novas, do Quadra, que eram bem difíceis. Cheguei do aeroporto direto para a sala de ensaio, sem banho, sem comer. E fui ensaiar.
Como foi o primeiro show? Onde foi, o que você sentiu antes de entrar no palco?
O primeiro show foi na Lituânia, num festival no meio do mato — parecia o filme Midsommar, galera fazendo ritual, meninas com folhinhas na cabeça, aquelas roupas meio de seita. E naquela parte da Europa no verão não fica de noite: a gente tocou à meia-noite e estava claro como se fosse de tarde.
Eu estava nervoso de errar, esquecer parte, dar branco. Eu tenho TDA de verdade, tomo remédio — ficava muito nessa preocupação de dar bug, passar reto numa música, esquecer o solo. No final errei umas duas coisas mais perceptíveis, mas a gente deu jeito e passou. No geral foi muito bom.
O que eu não esperava era perceber, no meio do show, que estava tocando Sepultura de verdade, com os caras, no palco. Aquilo bateu ali no meio — caralho, eu estou tocando com os caras de verdade aqui. Que doideira. O Dante ficou o show inteiro com um microfone falando no meu ouvido: “vai lá para frente agora”, “essa música começa lá atrás”, “troca de guitarra”, “não esquece o captador.” Me ajudou muito.
Que lição você trouxe dessa turnê? Como voltou o Jean de lá?
Voltei querendo ter uma banda para tocar no resto do mundo e não só no Brasil. Percebi que a música brasileira, o tempero brasileiro, é muito querido e respeitado — principalmente na Europa.
Todo o lance do profissionalismo, da pontualidade, da organização — não só do Sepultura, que já faz isso há quarenta anos, mas de todos os profissionais envolvidos trabalhando de forma muito lisa. Para mim estava tudo incrível. Aprendi horrores. E vi muitas bandas de fora que eu falava: na moral, a gente dá pau nessas bandas. É uma pena que poucas bandas brasileiras conseguem fazer esse role lá fora, para as pessoas verem o quanto as bandas nacionais são foda.
Também aprendi muito sobre produção de festivais, logística, transporte, equipamento, merchandise. Como a galera lidava com as partes burocráticas, com empresário, booking, os caras da casa. Fui dar rolê em todos os festivais — ninguém me conhecia, então eu podia andar livremente. Ficava observando tudo. Não foi uma aula — foi uma faculdade. Voltei outro.
Como foi sua chegada ao Korzus e como se formou a lineup atual com a Jéssica?
Comecei a tocar com o Korzus em 2022, quando me chamaram para substituir o Antônio Araújo em alguns shows — ele tinha uma agenda enorme com o Matanza Ritual e tinha se mudado para Recife, o que tornava a logística um pouco mais difícil. Sempre gostei muito deles pessoalmente, e o Korzus foi uma banda que me influenciou de fato quando era moleque. Quando ouvi, falei: “tem uma banda assim no Brasil?” Comprei o Ties of Blood, tirei músicas. Quando comecei a tocar com eles, rolou muito bem.
Fui fazendo shows com eles de 2022 até agora — festivais, rodamos o Brasil. Quando abriu uma vaga de outro guitarrista, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi a Jéssica, que eu estava produzindo o EP dela nesse meio tempo. A gente tinha uma química muito boa de composição, de trabalhar junto — sem tempo ruim. Se precisar, a gente fica até cinco da manhã fazendo bagulho. Eu precisava de alguém assim.
Fiz o convite para ela, ela gostou muito, e aí em 2026 fomos oficialmente introduzidos como integrantes da banda. Está sendo muito legal, muito vibe. A gente está curtindo muito essa nova fase.
Como você chegou na produção musical? Foi um caminho que você escolheu ou percebeu que já estava fazendo?
Foi natural até o momento que eu percebi que já fazia, porque já era natural. Eu sempre gostei de pensar na música como um todo. Nunca fui o guitarrista que ficou só pensando nas minhas linhas. Eu amo bateria — não consigo fazer um riff de guitarra sem já pensar no groove de bateria. Quando percebi, falei: já produzo há muito tempo, só nunca tinha percebido que chamava isso de produção.
Mas quando comecei a perceber mais claramente que gostava de fazer isso foi na pandemia. Fiquei muito em casa, entrei na vibe de gravar, de timbre. Comecei a escrever bateria eletrônica — eu tinha as ideias de bateria na cabeça, mas agora consegui apresentar e exemplificar. Aprendi a fazer uma música do zero até o produto final, inclusive mixar e masterizar. Falei: dá para fazer mesmo. E aí não parei mais.
Produzir o EP da Jéssica foi muito do processo todo. Pegar as ideias de outra pessoa e transformar numa parada — acrescentar, dar novas ideias, mudar estrutura. É diferente de produzir só para você. Quando é só para você, eu não terminava as coisas, sempre achava que podia melhorar. Com outra pessoa fazendo junto e aprovando, o flow fica muito mais rápido.
Como funciona a produção do novo disco do Korzus? É um processo coletivo ou você está na linha de frente?
Eu estou produzindo junto com os caras. O Rodrigo é produtor, o Pompeu é produtor premiado — tem até Grammy Latino. Então é isso, eu estou produzindo com eles. Mas eu acabo ficando um pouco mais na linha de frente, até porque eu e a Jéssica trazemos as músicas — numa banda como o Korzus, começa muito pelas guitarras, pelos riffs, pelas ideias de guitarra.
Todo mundo produz ali — e o bacana é que cada um tem autonomia em certos setores dentro da banda. O Rodrigo tem estúdio, o Pompeu é produtor também. Eu produzo e muitas das demos eu fiz em casa com a Jéssica. Então a gente tem muitas formas de trabalhar, é bem dinâmico. E os caras são super abertos para esse processo.
A gente está agora em estúdio produzindo o segundo single. Não vou falar mais do que isso por enquanto — mas vai ter segundo single em breve.
Como surgiu a Comunidade do Riff e por que você escolheu focar especificamente em guitarra base e riff?
Desde que comecei a tocar, sempre alguém me perguntava se eu dava aula. Eu sempre falei que não — me considerava muito impaciente para explicar, e não me achava com metodologia de professor. Mas um amigo meu, o Victor, ficou anos me falando: você tinha que fazer um curso. Cantou essa bola para mim em 2014. Demorei muito — fui fazer isso só em 2019.
O motivo foi simples: era a única coisa que eu sabia explicar. Mão direita, paletada, riff, galope, downpicking — coisa de metal base. Não queria explicar escala, sweep, arpejo. A única coisa que eu sei e gosto é explicar isso, do meu jeito. Você entra na Comunidade do Riff e eu falo como se estivesse falando com um amigo na câmera. Falo um monte de coisa, conto piada, explico do jeito que eu sei.
E foi uma das únicas coisas que nunca vi ninguém ensinando no Brasil: não tinha curso de riff, de palhetada, de mão direita com foco em metal. Então tem técnica de palhetada, rítmica, composição, gravação — de onde vêm as ideias, como transformar três notas em quinze riffs diferentes, variações, inversões, harmonia, timbre. Tudo que eu sei. A galera gostou muito — ajuda muita gente que não parava para prestar atenção nessas coisas.
E de onde vem esse lado de músico empreendedor — as camisetas, a loja, os IRs? Como você juntou design e música?
Hoje eu sou guitarrista profissional, essa é a minha vida — mas por muitos anos eu fui designer. É a minha formação profissional fora da música. Por muito tempo fui diretor de arte de agência, sempre trabalhei com Photoshop, interfaces. Então eu sempre gostei de artes visuais em geral — filmes, ilustrações, quadros, pinturas, embalagem, estampa de camiseta.
Como eu sempre trabalhei com isso, no Project46 muitas tampas de camiseta eu fazia. Fiz para outras bandas, para clientes. Fazia até MySpace, site. E foi uma forma de unir as duas coisas. Antes, quando eu não ganhava dinheiro com a música, a música era hobby — porque eu não ganhava dinheiro. Então troquei: a música virou minha profissão e hoje o design é meio que meu hobby. É muito doido isso.
Às vezes eu lançava estampas de zoeira no Instagram e a galera falava: eu compraria. Eu falava: que do caralho, vamos então. Fiz e rolou. Então na loja tem camiseta, tem IRs, tem paleta com design. Juntei só a fome e a vontade de comer com o que eu já sabia fazer.
Você viveu todos os lados do metal — palco, estrada, produção, ensino, gear. O que ainda te move e onde você quer chegar?
O que me move é minha paixão pelo que tenho com a música pesada. E a vontade de tocar no mundo inteiro com a minha banda. Eu fui fazer a turnê do Sepultura e falei: é isso que eu quero. Essa é a minha vida — eu amo tocar, amo estar em cima do palco, amo viajar com amigos que amam a mesma coisa, conhecer gente nova, lugares novos.
Quero fazer turnê de tour bus com o Korzus, fazer uma turnê completa nos Estados Unidos, tocar na Índia, no Egito — rodar o mundo inteiro. E, no processo, influenciar novas gerações. Assim como eu fui influenciado quando era moleque por esses caras todos, eu gostaria de proporcionar esse arrepio para uma molecada também. Porque esses caras que me influenciaram mudaram a minha vida. Eu não estaria aqui.
Mas eu não fico nessa brisa também. Eu faço o meu bagulho. Se as pessoas gostarem — ótimo. Cola junto, vamos que vamos. Quero ver a ascensão do metal, do rock, da música pesada. Se isso rolar, vou morrer tranquilão. Só que para chegar num nível de excelência, de critério… você tem que ter paciência de saber que é pouquinho por dia. Mas assim, vai fazendo — a evolução acontece. É só ter um pouco de paciência.